A noite de São Bartolomeu
“A noite de São Bartolomeu”
Na madrugada de 24 de agosto de 1572, com a porta forçada, ele disse: "Há muito tempo que me dispus a morrer. Vós outros, salvai-vos, se for possível…" (Gaspard de Coligny, segundo os que estavam no quarto)
Quem era
Gaspard de Coligny nasceu em Châtillon-sur-Loing em 1519. Soldado desde a juventude, foi feito almirante de França em 1552.
Preso em Saint-Quentin, em 1557, leu as Escrituras no cativeiro e chegou à fé reformada (a data exata da conversão é incerta).
Sem santinho: nas guerras civis (1562–1570) foi o chefe militar dos reformados, e os seus exércitos também saquearam. No testamento de 1569, ele mesmo escreve que tomou as armas "não contra o rei", mas para defender a vida dos reformados.
Os que esconderam
Philippe Duplessis-Mornay, que depois se casaria com Charlotte, escondeu-se entre dois telhados da casa onde morava. O hospedeiro, Poret, era "católico romano, mas homem de consciência", escreveu ela.
O menino que seria duque de Sully cruzou as ruas com um livro de horas debaixo do braço; um guarda viu o livro e o deixou passar. No Colégio de Borgonha, o diretor, La Faye, "movido de compaixão", escondeu-o três dias.
Charlotte saiu de Paris de barco, no 11º dia. Houve quem matasse, e houve quem escondesse: não foram "os católicos".
Linha do tempo
- 16/2/1519Nasce em Châtillon-sur-Loing
- 1552Almirante de França
- 1557Preso na defesa de Saint-Quentin
- 1562–1570Chefe militar dos reformados nas guerras civis
- 18/8/1572Casamento de Henrique de Navarra com Margarida de Valois, em Paris
- 22/8/1572Ferido por um tiro disparado de uma janela; perdoa "de bom coração"
- 24/8/1572Morto em casa, na rua de Béthisy, ao amanhecer
- 26/8/1572Perante o Parlamento, o rei assume a morte dos chefes protestantes como ordem sua
“Há muito tempo que me dispus a morrer. Vós outros, salvai-vos, se for possível, porque não poderíeis garantir a minha vida. Recomendo a minha alma à misericórdia de Deus.”
“Il y a long temps que ie me suis disposé à mourir. Vous autres, sauuez-vous, s'il est possible, car vous ne sauriez garentir ma vie. Ie recommande mon ame à la misericorde de Dieu.”
“Tendo tomado o meu vestido e olhado pelas minhas janelas, vi, na grande rua Saint-Antoine, onde eu estava hospedada, todo o mundo muito agitado, vários postos de guarda e cada um com cruzes brancas no chapéu. Então vi que era a sério.”
“ayant prins ma cotte et regardé par mes fenêtres, j'aperceu, à la grande rue S. Anthoyne où j'estoy logée, tout le monde fort esmeu, plusieurs corps de garde et chacun à leur chapeau des croix blanches. Lors je vis que c'estoit à bon escient.”
Mito e fato
MitoO sino foi o sinal secreto do massacre.
FatoO sino tocou naquela madrugada. Ser o sinal de um massacre planejado é a leitura de Goulart, na época; Arlette Jouanna acha pouco provável.
MitoMorreram 70 mil.
FatoÉ o número de Sully. Hoje se estima c. 2.000–3.000 em Paris e 5.000–10.000 na França; ninguém sabe o número exato.
O que se ouve no episódio
A narração completa, com as falas dos personagens. As falas são palavras registradas, com a fonte na lista abaixo.
NarradorParis, madrugada de domingo, 24 de agosto de 1572. Junto ao Louvre, um sino começa a tocar. Numa casa ali perto, um homem ferido pede ao pastor que ore. Era Gaspard de Coligny, almirante de França. Preso na guerra, leu as Escrituras no cativeiro; depois, abraçou a fé reformada. Nas guerras civis, comandou os exércitos reformados. Viera a Paris para o casamento do protestante Henrique de Navarra com a irmã do rei. Dois dias antes, um tiro disparado de uma janela o ferira na mão e no braço. Segundo um relato da época, disse ao pastor:
Gaspard de ColignyPerdoo de bom coração àquele que me feriu e aos que o induziram a fazê-lo… a morte me é uma passagem segura para chegar à vida.
NarradorSoldados e homens do duque de Guise forçavam a porta. Segundo os que estavam com ele, disse:
Gaspard de ColignyHá muito tempo que me dispus a morrer. Vós outros, salvai-vos, se for possível, porque não poderíeis garantir a minha vida. Recomendo a minha alma à misericórdia de Deus.
NarradorQuase todos fugiram pelo telhado. Ele foi morto ao amanhecer. Charlotte Arbaleste olhou pela janela:
Charlotte ArbalesteVi… todo o mundo muito agitado, vários postos de guarda e cada um com cruzes brancas no chapéu. Então vi que era a sério.
NarradorHouve quem escondesse protestantes. O futuro marido dela escondeu-se na casa do hospedeiro, Poret, católico romano, mas homem de consciência, como ela escreveu. Um menino que seria duque de Sully cruzou as ruas com um livro de horas debaixo do braço; o diretor do colégio o escondeu três dias. O rei mandou parar as mortes no mesmo domingo. Não pararam: seguiram por dias e, em outras cidades, até outubro. Dois dias depois, assumiu a morte dos chefes protestantes como ordem sua. Estimam-se cerca de 3000 mortos em Paris e de cinco a mais de 10000 na França; ninguém sabe o número exato. Quem decidiu o massacre, os historiadores ainda discutem. Naquela madrugada, ele recomendara o seu espírito nas mãos de Cristo.
Galeria
Quem decidiu o massacre, os historiadores ainda discutem. Os números são estimativas. Traduções nossas.
François Clouet (atrib.), O almirante Gaspard de Coligny, séc. XVI · Saint Louis Art Museum · Domínio público. (O Commons o põe na categoria "segundo Clouet": daí o "atrib.".)
Paris. Georg Braun e Frans Hogenberg, Civitates Orbis Terrarum, vol. I, 1572, a partir de um plano de c. 1530 · Domínio público.
Matthäus Merian, o Jovem, A igreja de Saint-Germain-l'Auxerrois, Paris, 1655 · Rijksmuseum · CC0. (Recortar a lombada e a margem do álbum. Vista 83 anos posterior.)
Philippe Duplessis-Mornay aos 64 anos. Escola flamenga, 1613 · Musée d'arts de Nantes · Domínio público. (Imagem pequena; retrato de 41 anos depois.)
Maximilien de Béthune, duque de Sully. Gravura de Henri-Joseph Godin segundo Clément-Pierre Marillier, séc. XVIII · Rijksmuseum · CC0. (Retrato de velho, muito posterior.)
Para salvar
O resumo do episódio em oito cartões. Deslize para o lado.







Fontes de cada afirmação
Afirmações e fontes
| Narração | Fonte |
|---|---|
| Paris, madrugada de domingo, 24 de agosto de 1572. Junto ao Louvre, um sino começa a tocar. Na tela: "sino de Saint-Germain-l'Auxerrois" | Dossiê §1 (noite de 23 para 24/8, [2+]); Mémoires de l'Estat, em Archives curieuses VII p. 118 ("fait sonner la cloche du temple de Sainct-Germain de l'Auxerrois"). O vídeo não diz que o sino era um "sinal": essa leitura é de Goulart (Crespin p. 664: "si tost que le tocsin sonneroit"); fr.wikipedia cita Jouanna: "peu probable que le tocsin ait été le signal d'un massacre planifié" |
| Numa casa ali perto, um homem ferido pede ao pastor que ore | Crespin/Benoit III p. 665–666 (Merlin ora); Delaborde III p. 472–473 |
| Era Gaspard de Coligny, almirante de França. Na tela: "Almirante de França desde 1552" | Delaborde t. I (provisão de 11/11/1552); nascimento em Châtillon-sur-Loing, 16/2/1519 (Delaborde t. I p. 4–5, contra a data antiga de 1517) |
| Preso na guerra, leu as Escrituras no cativeiro; depois, abraçou a fé reformada. Na tela: "Saint-Quentin, 1557" | Delaborde t. I, cap. XI ("se livra à l'étude de l'Écriture sainte"); en.wikipedia "Gaspard II de Coligny" (data da conversão incerta: por isso "depois", sem ano) |
| Nas guerras civis, comandou os exércitos reformados | Dossiê §0 e §4 (1562–1570; chefe militar sobretudo depois de 1569); o testamento de 1569 assume as armas (Delaborde III p. 554). Os exércitos dele também saquearam (Cluny, 1570: en.wikipedia) |
| Viera a Paris para o casamento do protestante Henrique de Navarra com a irmã do rei. Na tela: "Paris, 18 de agosto de 1572" | Dossiê §1 (18/8/1572, Henrique de Navarra e Margarida de Valois) |
| Dois dias antes, um tiro disparado de uma janela o ferira na mão e no braço. Na tela: "Paris, sexta-feira, 22 de agosto de 1572" | Dossiê §1 (22/8, [2+]): um dedo da mão direita, o braço esquerdo; Ambroise Paré o tratou. O atirador fica sem nome (só suspeito) |
| "Perdoo de bom coração àquele que me feriu e aos que o induziram a fazê-lo… a morte me é uma passagem segura para chegar à vida." Na tela: "segundo as Mémoires de l'Estat de France (Goulart, 1576)" | Mémoires de l'Estat t. I p. 369–371, em Delaborde III p. 441–442 e Archives curieuses VII p. 96–97 (texto idêntico; Merlin, "qui est vivant", como testemunha): "Je pardonne de bon cœur à celuy qui m'a blessé et à ceux qui l'ont induit à ce faire; car je suis certain qu'ils ne me sçauroyent faire tort quelconque, quand mesmes ils me mettroyent à mort, d'autant que la mort m'est un passage asseuré pour parvenir à la vie." Corte marcado com "…" |
| Soldados e homens do duque de Guise forçavam a porta | Crespin/Benoit III p. 665; Archives curieuses VII p. 119; en./fr.wikipedia e Larousse concordam nos "homens do duque de Guise". A porta é a do pé da escada (a da rua foi aberta com a chave) |
| "Há muito tempo que me dispus a morrer. Vós outros, salvai-vos, se for possível, porque não poderíeis garantir a minha vida. Recomendo a minha alma à misericórdia de Deus." Na tela: "segundo os que estavam no quarto (Goulart, 1576; Crespin, 1582)" | Crespin/Benoit III p. 666: "Il y a long temps que ie me suis disposé à mourir. Vous autres, sauuez-vous, s'il est possible, car vous ne sauriez garentir ma vie. Ie recommande mon ame à la misericorde de Dieu."; Delaborde III p. 473 (cita Mém. de l'Estat t. I p. 390); Archives curieuses VII p. 120. Goulart: "Ceux qui tesmoignent ces choses, pour y avoir esté presens" |
| Quase todos fugiram pelo telhado. Ele foi morto ao amanhecer | Mémoires de l'Estat ("la pluspart eschappèrent"); um criado, Nicolas Muss, ficou. Crespin 1582 diverge ("la plufpart furent tuez au logis proche"): por isso o vídeo não diz que se salvaram. A morte é uma frase, sem imagem |
| Charlotte Arbaleste olhou pela janela: "Vi… todo o mundo muito agitado, vários postos de guarda e cada um com cruzes brancas no chapéu. Então vi que era a sério." Na tela: "Charlotte Arbaleste, Mémoires · tradução nossa" | Mémoires de Madame de Mornay I p. 59: "ayant prins ma cotte et regardé par mes fenêtres, j'aperceu, à la grande rue S. Anthoyne où j'estoy logée, tout le monde fort esmeu, plusieurs corps de garde et chacun à leur chapeau des croix blanches. Lors je vis que c'estoit à bon escient." "Corps de garde" = postos de guarda (não "corpos"). Corte "…" do lugar |
| Houve quem escondesse protestantes. O futuro marido dela escondeu-se na casa do hospedeiro, Poret, católico romano, mas homem de consciência, como ela escreveu | Mémoires de Madame de Mornay I p. 39–40: "Son hôte s'appelloit Poret, qui vit encor. Catholique Romain, mais homme de conscience." Duplessis-Mornay escondeu-se sozinho "entre deux toists"; no dia seguinte, Poret pediu-lhe que saísse |
| Um menino que seria duque de Sully cruzou as ruas com um livro de horas debaixo do braço; o diretor do colégio o escondeu três dias. Na tela: "Colégio de Borgonha · Sully, Œconomies royales" | Sully, Œconomies royales (1725) I p. 65 ("un d'entr'eux prenant votre livre, & voyant que… c'étoit de grosses Heures, vous fit passer") e p. 66 ("le Principal nommé la Faye… mû de compassion… vous mit dans une chambre fort secrette"). Memória tardia, escrita pelos secretários. A religião de La Faye não é dita pela fonte: o vídeo não o chama "católico" |
| O rei mandou parar as mortes no mesmo domingo. Na tela: "Ordem do rei para cessar as mortes: 24/8/1572 (Registros da Cidade de Paris)" | Registres des délibérations du Bureau de la Ville de Paris VII (1893), sumário de agosto de 1572 ("ordres donnés par le Roi pour mettre un terme aux meurtres et aux pillages"); "Pilleries empeschées à Paris", p. 12–13 |
| Não pararam: seguiram por dias e, em outras cidades, até outubro. Na tela: "Províncias: 25 de agosto a outubro de 1572" | fr.wikipedia (cronologia das províncias); Larousse (25/8–3/10) |
| Dois dias depois, assumiu a morte dos chefes protestantes como ordem sua. Na tela: "26/8/1572: perante o Parlamento, o rei assume a morte dos chefes protestantes como «ordem expressa» sua (Delaborde; fr. Wikipedia)" | Delaborde III p. 476; fr.wikipedia (o lit de justice de 26/8). A fr.wikipedia diz que hoje não há mais debate sobre a decisão régia de matar os chefes; o debate é sobre o massacre geral |
| Estimam-se cerca de três mil mortos em Paris e de cinco a mais de dez mil na França; ninguém sabe o número exato. Na tela: "Estimativas: Paris c. 2.000–3.000 · França c. 5.000–10.000; outras chegam a 30.000 · Sully, na época, falou em 70.000 (fr./en. Wikipedia; Larousse)" | en.wikipedia (lead e infobox: "from 5,000 to 30,000"); fr.wikipedia (infobox: 10.000 a 30.000); Larousse ("quelque 3 000" em Paris, visto só no resumo de uma busca); Sully, 70.000 |
| Quem decidiu o massacre, os historiadores ainda discutem | fr.wikipedia (historiografia: Bourgeon, Crouzet, Jouanna, Wanegffelen, Foa). Os livros não foram abertos: só via enciclopédias |
| Naquela madrugada, ele recomendara o seu espírito nas mãos de Cristo | Crespin/Benoit III p. 665–666 ("recommanda son esprit entre ses mains") |
| Na tela: "Em tuas mãos encomendo meu espírito: redimiste-me, Jehovah, Deus da verdade." (Salmo 31:5, Almeida, 1819) | A Biblia Sagrada, trad. Almeida, Londres, 1819 (IA bibliasagradacon00alme): "Em tuas maos encommendo meu espirito : redimiste me, Jehovah, Deus da verdade." Na edição de 1819 é o v. 6 (conta o título como v. 1); igual na de Nova York, 1848 (IA bub_gb_UUY2AAAAMAAJ). Grafia atualizada. Ele não citou o salmo: o vídeo não diz que citou |
| Legenda: o testamento de 1569 ("Ainda que os nossos dias estejam contados diante de Deus…") | Testamento, Archiac, 5/6/1569, em Delaborde III, apêndice XIX, p. 553: "encores que nos jours soient contés devant Dieu, si esse que nous n'avons rien si incertain que l'heure en laquelle il luy plaira nous appeller, nous nous debvons doncques tousjours tenir si préparés que nous ne soyons point surprys" |
| Legenda: o forte Coligny na Guanabara (ep. 12); Henrique de Navarra, filho de Joana d'Albret (ep. 13) | Dossiê §0 e §4 |
| Carrossel: "não contra o rei" (testamento) | Delaborde III p. 554: "si j'ay pris les armes, ce n'a point esté contre le roy, mais contre ceulx qui tiranniquement ont contraint ceulx de la religion réformée de les prendre pour garantir leurs vies" |
| Carrossel: a fuga de Charlotte de barco no 11º dia | Mémoires de Madame de Mornay I p. 60–66 |
| Carrossel (mito): "o sino era o sinal secreto" e "70 mil mortos" | Ver acima (sino; números) |
Ficaram de fora de propósito: a frase a Besme ("Jovem, devias ter consideração pela minha velhice…"), que vem dos atacantes e exige a espada na cena, e a variante depreciativa das últimas palavras; o destino do corpo; o sino como "sinal combinado" por ordem de Catarina; Carlos IX atirando do Louvre; "matem todos"; a galinha de Merlin (d'Aubigné); Paré escondido pelo rei (Brantôme); o nome do atirador; Gregório XIII (Te Deum, medalha, afrescos de Vasari); o pagamento da Cidade pelo enterro de 1.100 corpos (documento não achado) e o "ao menos 4.000" de Crouzet (não aberto); "Meus amigos, por que chorais?" (Q1).
Leituras
- Simon Goulart, Mémoires de l'Estat de France sous Charles IX, t. I (1576), via Delaborde e Archives curieuses de l'histoire de France, 1ª série, t. VII (1835)
- Jean Crespin e Simon Goulart, Histoire des martyrs, ed. D. Benoit, t. III (Toulouse, 1889)
- Jules Delaborde, Gaspard de Coligny, amiral de France, t. I e III (Paris, 1879–1882), com o testamento de 1569
- Mémoires de Madame de Mornay, t. I (Paris, 1868)
- Sully, Mémoires ou Œconomies royales, t. I (Amsterdã, 1725)
- Registres des délibérations du Bureau de la Ville de Paris, t. VII (1893); Wikipedia (fr./en.) e Larousse, para as estimativas
- A Biblia Sagrada, trad. J. F. de Almeida (Londres, 1819), Sl 31:5
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