Os cinco estudantes de Lyon
“Salmos na prisão”
Numa carroça, cinco estudantes começaram a cantar o Salmo 9: "De todo o meu coração te exaltarei." Não os deixaram terminar. (Lyon, 16 de maio de 1553, segundo Crespin)
Quem eram
Cinco jovens franceses que tinham estudado em Lausanne: Martial Alba, Pierre Escrivain, Bernard Seguin, Charles Favre e Pierre Navihères.
Voltavam cada um para a sua terra (Toulouse, Bordeaux, Saintonge, Limoges) para falar da fé às próprias famílias. Eram estudantes, não pastores.
Não se sabe a idade de nenhum deles: Martial Alba era o mais velho. Não existe retrato dos cinco.
Linha do tempo
- 30/4/1552Chegam a Lyon, vindos de Lausanne e de Genebra
- 1/5/1552Presos; cada um posto à parte num calabouço escuro
- 13/5/1552Declarados hereges, apelam ao Parlamento de Paris
- 10/6/1552Primeira carta de Calvino aos cinco
- fim de fev. 1553O Parlamento de Paris rejeita o recurso; Berna continua a pedir ao rei por eles
- 16/5/1553Queimados na praça dos Terreaux, em Lyon
“O tempo não me é longo na prisão, ainda que um ano inteiro já tenha passado entre ferros, cepos e amarras… O som das chaves do carcereiro me agrada mais que o som do tamborim, do alaúde…”
“Le temps ne m'est point long aux prisons, encore qu'vn an entier soit desia escoulé entre les fers, ceps & liens… Le son des clefs du Geolier me plait plus que le son du tabourin, du luc…”
“Já que lhe agrada empregar-vos até a morte para sustentar a sua causa… ele não permitirá que uma só gota do vosso sangue fique inútil.”
“…puis qu'il lui plait vous employer iusqu'à la mort à maintenir sa querelle… ne souffrira pas qu'vne seule goutte de vostre sang demeure inutile.”
“Que eu possa beijar os meus irmãos antes de morrer. … Adeus, adeus, meu irmão. … Meu amigo, não esqueças o que eu te disse.”
“Que ie puisse baiser mes freres deuant que mourir.” … “Adieu, Adieu, mon frere.” … “Mon ami, n'oublie pas ce que ie t'ai dit.”
Mito e fato
MitoCantaram salmos na fogueira.
FatoCantaram salmos antes de sair e começaram o Salmo 9 na carroça, a caminho; não os deixaram terminar. Do meio do fogo, ouviu-se: "Coragem, meus irmãos, coragem."
MitoEram pastores enviados por Calvino.
FatoEram estudantes voltando para casa, com atestados da igreja de Lausanne, de Viret e de Calvino.
O que se ouve no episódio
A narração completa, com as falas dos personagens. As falas são palavras registradas, com a fonte na lista abaixo.
NarradorLyon, 16 de maio de 1553. Numa carroça, cinco estudantes começam a cantar o Salmo nove: De todo o meu coração te exaltarei. Não os deixaram terminar. Tinham estudado em Lausanne e voltavam para a França, para falar da fé às próprias famílias. Em Lyon, no primeiro dia de maio de 1552, foram presos: Martial Alba, Pierre Escrivain, Bernard Seguin, Charles Favre e Pierre Navihères. Berna, que governava Lausanne, pediu ao rei por eles; de Genebra, Calvino lhes escrevia. Da prisão, eles contaram que cantavam salmos de dia e também no calabouço onde dormiam. No fim de fevereiro, chegou a decisão do Parlamento de Paris: o recurso deles foi rejeitado. Em maio, Navihères escreveu aos primos:
Pierre NavihèresO tempo não me é longo na prisão, ainda que um ano inteiro já tenha passado entre ferros, cepos e amarras… O som das chaves do carcereiro me agrada mais que o som do tamborim, do alaúde…
NarradorO rei recusou os pedidos de Berna. Calvino lhes escreveu, falando de Cristo:
CalvinoJá que lhe agrada empregar-vos até a morte para sustentar a sua causa… ele não permitirá que uma só gota do vosso sangue fique inútil.
NarradorNo dia 16, ouviram a sentença: a fogueira, na praça dos Terreaux. Oraram e cantaram salmos. Martial Alba, o mais velho, subiu por último e pediu ao tenente:
Martial AlbaQue eu possa beijar os meus irmãos antes de morrer.
NarradorBeijou os quatro, já amarrados, dizendo a cada um:
Martial AlbaAdeus, adeus, meu irmão.
NarradorBeijou também o carrasco:
Martial AlbaMeu amigo, não esqueças o que eu te disse.
NarradorDo meio do fogo, por algum tempo, ouviu-se: Coragem, meus irmãos, coragem.
Galeria
Os detalhes do dia 16 vêm só de Crespin. As traduções do francês do séc. XVI são literais e nossas.
Lyon, c. 1550: o fosso dos Terreaux. Plan scénographique de Lyon, prancha 18 · Archives municipales de Lyon · Domínio público.
Lyon, c. 1550: o Saône e Saint-Paul. Plan scénographique de Lyon, prancha 13 · Archives municipales de Lyon · Domínio público.
Pseaumes octante trois de David, Genebra, Jean Crespin, 1551 · Domínio público.
João Calvino. Anônimo francês, c. 1550 · Museum Catharijneconvent, Utrecht · Domínio público.
Pierre Viret, a quem Navihères serviu em Lausanne. Beza, Icones, 1580 (fac-símile de 1906) · Domínio público.
Para salvar
O resumo do episódio em oito cartões. Deslize para o lado.







Fontes de cada afirmação
Afirmações e fontes
| Narração | Fonte |
|---|---|
| Lyon, 16/5/1553: numa carroça, começam a cantar o Salmo 9, "De tout mon cœur t'exalterai"; não os deixaram terminar | Crespin 1619, p. 673, e 1570 ("commencerent à chanter le Pseaume 9… combien qu'on ne leur donnast le loisir de l'acheuer"); a data também em Beza, Histoire ecclésiastique I, p. 109, e CO 14, nº 1746, n. 1 |
| Tinham estudado em Lausanne e voltavam para a França, para falar da fé às próprias famílias ("parens") | Crespin, p. 586 (carta dos cinco); Beza, p. 108–109 |
| Presos em Lyon em 1º/5/1552: Martial Alba, Pierre Escrivain, Bernard Seguin, Charles Favre e Pierre Navihères | Crespin, p. 585 e 586 (uma vez no texto dos próprios cinco); Beza, p. 108–109 (os nomes e a chegada em 30/4/1552) |
| Berna, que governava Lausanne, pediu ao rei por eles | Crespin, p. 670–671; Beza, p. 109 |
| De Genebra, Calvino lhes escrevia (tela: carta de 10/6/1552) | Crespin, p. 657–658 ("De Geneue, ce dixiesme de Iuin, M.D.LII"); Bonnet I, p. 341 ss. |
| Cantavam salmos de dia e também no calabouço onde dormiam | Cartas deles, citadas por Crespin, p. 673 (1570: "au croton où nous couchons"); texto coletivo, sem data nem assinatura |
| Fim de fevereiro de 1553: a decisão do Parlamento de Paris; o recurso rejeitado | Crespin, p. 671 ("apporté le dernier iour de Feurier 1553… n'estoyent receuables en appel") |
| "O tempo não me é longo na prisão, ainda que um ano inteiro já tenha passado entre ferros, cepos e amarras… O som das chaves do carcereiro me agrada mais que o som do tamborim, do alaúde…" | Pierre Navihères aos primos, Crespin 1619, p. 667–668, e 1570; "maio" deduzido do próprio texto (um ano depois de 1/5/1552) |
| O rei recusou os pedidos de Berna | Calvino aos cinco, maio de 1553 (Bonnet I, p. 382–383; CO 14, nº 1746: "le Roy a refusé plat et court toutes les requestes") |
| "Já que lhe agrada [a Cristo] empregar-vos até a morte para sustentar a sua causa… ele não permitirá que uma só gota do vosso sangue fique inútil." | Calvino aos cinco, Genebra, maio de 1553, sem dia (CO 14, nº 1746, col. 545–546; Bonnet I, p. 384; Crespin 1619, p. 659, e 1570) |
| 16/5/1553: a sentença (a fogueira, na praça dos Terreaux); oraram e cantaram salmos | Crespin 1619, p. 673, e 1570 |
| Martial Alba, o mais velho, subiu por último e pediu ao tenente: "Que eu possa beijar os meus irmãos antes de morrer." | Crespin 1619/1570, p. 674 ("Le dernier qui monta fut Martial Alba, le plus aagé des cinq… au lieutenant Tignac"; "Que ie puisse baiser mes freres deuant que mourir") |
| Beijou os quatro, já amarrados: "Adeus, adeus, meu irmão." | idem ("Adieu, Adieu, mon frere") |
| Beijou também o carrasco: "Meu amigo, não esqueças o que eu te disse." | idem ("Mon ami, n'oublie pas ce que ie t'ai dit"); o que ele lhe tinha dito não se sabe |
| Do meio do fogo, por algum tempo: "Coragem, meus irmãos, coragem." | Crespin 1619, p. 674 ("Courage, mes freres, courage"); 1570 ("Courage, mes freres: courage") |
| Hino: Salmo 9, Clément Marot, 1ª estrofe, com a melodia do Saltério de Genebra, na forma de 1551; tradução literal nossa | Pseaumes octante trois de David (Genebra: Jean Crespin, 1551), p. 50; notas conferidas com o Book of Praise (Genevan 9); hinos/salmo-9.json |
| Legenda: o salmo foi na carroça, não na fogueira | dossiê §2; Crespin, p. 673–674 |
| Legenda: "Ireis impedir-nos, o pouco que temos para viver, de louvar e invocar o nosso Deus?" | Crespin, p. 674 (os cinco aos guardas, a caminho) |
| Legenda: o saltério de 1551 saiu da oficina de Jean Crespin | folha de rosto ("A GENEVE. De l'imprimerie de Iean Crespin. M.D.LI."), File:Crespin Ps 1551.jpg no Commons |
| Legenda: Hebreus 13:20–21, dito por um deles a caminho | Crespin 1570 e 1619, p. 673–674 (praça da Herberie); Almeida, Nova York, 1848 (grafia atualizada) |
Leituras
- Jean Crespin, Histoire des martyrs (Genebra, 1570; texto de 1619, ed. D. Benoit, Toulouse, 1885, t. I, p. 585–674)
- Teodoro de Beza, Histoire ecclésiastique (1580), ed. Baum e Cunitz, t. I (1883), p. 108–110
- Lettres de Jean Calvin, ed. J. Bonnet, t. I (1854); Calvini Opera 14 (1875), nº 1746
- Pseaumes octante trois de David (Genebra: Jean Crespin, 1551), p. 50: o Salmo 9 de Clément Marot
- A Biblia Sagrada, trad. J. F. de Almeida (Nova York, 1848)
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