Olympia Morata
“A erudita de Ferrara”
Ela saiu descalça de uma cidade incendiada e escreveu: "…Entre as pobrezinhas, eu parecia a rainha de todas as mendigas." (Olympia Morata a Curione, 1554)
Quem era
Nasceu em Ferrara, Itália, no fim de 1526 ou no começo de 1527, filha de um humanista. Escrevia em latim e grego.
Por volta de 1540, foi chamada à corte para estudar com Anna d'Este, a filha do duque.
Casou-se com Andreas Grundler, médico alemão de Schweinfurt. Não se conhece retrato autêntico dela.
Linha do tempo
- c. 1540Chamada à corte de Ferrara para estudar com a filha do duque
- 1548Deixa a corte para cuidar do pai; morto ele, a família perde o favor da corte
- 1550Deixa a Itália com o marido e o irmão Emilio, de 8 anos, para Schweinfurt
- 1553Um marquês ocupa Schweinfurt, e os inimigos dele cercam a cidade
- junho de 1554Os sitiantes saqueiam e incendeiam a cidade; ela foge descalça até Hammelburg
- 26/10/1555Morre em Heidelberg, antes dos 29 anos
“Alegro-me de que tudo isso me tenha acontecido. …Enquanto estive lá, nunca pude pensar em nada elevado nem divino, nem ler os livros dos dois Testamentos.”
“…omnia haec mihi contigisse laetor… Nunquam enim, dum ibi fui, quicquam altum, aut divinum sapere potui, neque libros utriusque Testamenti legere.”
“Senhor, se me queres viva, manda aos teus anjos que me puxem, porque eu, com certeza, não posso.”
“Signore, se tu mi vuoi viva, comanda alli tuoi angeli che mi tirino, che certo io non posso.”
“A vós, quase já não vos reconheço. Mas todo o resto me parece cheio de flores belíssimas.”
“Vos quidem, inquit, vix amplius agnosco, omnia autem caetera mihi videntur plena esse pulcherrimis floribus.”
Mito e fato
MitoSchweinfurt foi destruída numa guerra de católicos contra protestantes.
FatoO marquês que ocupou a cidade era protestante. Entre os sitiantes estavam os bispos de Würzburg e Bamberg, mas também Nuremberg, luterana.
MitoFoi professora da Universidade de Heidelberg.
FatoDeu aulas particulares de grego. Quem a universidade chamou para ensinar foi o marido, médico.
O que se ouve no episódio
A narração completa, com as falas dos personagens. As falas são palavras registradas, com a fonte na lista abaixo.
NarradorJunho de 1554. Atrás de uma mulher descalça, uma cidade alemã arde. Semanas depois, ela escreveu:
Olympia Morata…Entre as pobrezinhas, eu parecia a rainha de todas as mendigas. Entrei naquela cidadezinha de pés descalços, de cabelos soltos, com um vestido rasgado que nem era meu.
NarradorEra Olympia Morata, de Ferrara, filha de um humanista. Escrevia em latim e grego, e foi chamada à corte para estudar com a filha do duque. Morto o pai, perdeu o favor da corte. Mais tarde, escreveu:
Olympia MorataAlegro-me de que tudo isso me tenha acontecido. …Enquanto estive lá, nunca pude pensar em nada elevado nem divino, nem ler os livros dos dois Testamentos.
NarradorCasou-se com um médico alemão, Andreas Grundler. Em 1550, deixou a Itália com ele e com o irmão de oito anos. Foram para Schweinfurt, a cidade dele. Em 1553, um marquês ocupou a cidade, e os inimigos dele a cercaram. Escondiam-se numa adega. Quando o marquês saiu, os sitiantes saquearam e incendiaram a cidade. Roubaram-lhes até as roupas, e o marido foi preso duas vezes. Fugindo sem sapatos, ela dizia a Deus:
Olympia MorataSenhor, se me queres viva, manda aos teus anjos que me puxem, porque eu, com certeza, não posso.
NarradorPerdera os livros e quase todos os escritos. Em Heidelberg, ela adoeceu de vez. A Celio Secondo Curione, escreveu:
Olympia MorataSe te anunciarem a minha morte, não te aflijas. Eu sei que só então hei de viver, e desejo já partir e estar com Cristo.
NarradorNo fim, acordou sorrindo. O marido escreveu:
Andreas GrundlerPerguntei de que sorria tão docemente.
Olympia MorataEu via agora há pouco, dormindo, um lugar cheio de uma luz belíssima e claríssima.
Andreas Grundler…Já quando a vista lhe faltava, disse:
Olympia MorataA vós, quase já não vos reconheço. Mas todo o resto me parece cheio de flores belíssimas.
NarradorMorreu em 26 de outubro de 1555, antes dos 29 anos. O marido e o irmão morreram pouco depois. Curione publicou seus escritos, com salmos que ela pôs em versos gregos. Entre eles, o 46: Deus nos é refúgio e fortaleza.
Galeria
As últimas palavras vêm só da carta do marido. As traduções do latim e do italiano são literais e nossas.
Ferrara em perspectiva. Água-forte, séc. XVII · British Museum · Domínio público.
Renata de França, duquesa de Ferrara. Corneille de Lyon, c. 1530 · Domínio público.
Schweinfurt antes da destruição de 1554. Sebastian Münster, Cosmographia, 1550 · Domínio público.
Heidelberg. Braun & Hogenberg, Civitates Orbis Terrarum, 1572 · UB Heidelberg · Domínio público.
Lápide de Olympia Morata, Peterskirche, Heidelberg. Foto: Heiko Fischer, Wikimedia Commons, CC BY 4.0. Imagem adaptada. Arquivo: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Peterskirche_Heidelberg,_Grabstein_Olympia_Fulvia_Morata.jpg · Licença: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
Para salvar
O resumo do episódio em oito cartões. Deslize para o lado.







Fontes de cada afirmação
Afirmações e fontes
| Narração | Fonte |
|---|---|
| Junho de 1554: descalça, saindo de Schweinfurt, saqueada e incendiada | a Curione, Heidelberg, 25/7/1554 (Opera 1570, p. 161–162); a Cherubina, 8/8/1554 (p. 213–214); NDB; de.wikipedia, "Geschichte Schweinfurts" |
| "…Entre as pobrezinhas, eu parecia a rainha de todas as mendigas. Entrei naquela cidadezinha de pés descalços, de cabelos soltos, com um vestido rasgado que nem era meu…" | a Curione, Heidelberg, 25/7/1554 (p. 162) |
| Filha de um humanista; escrevia em latim e grego; chamada à corte para estudar com a filha do duque (c. 1540) | Curione a Xystus Betuleius (p. 96–97); NDB; Treccani |
| Morto o pai, perdeu o favor da corte | a Curione, Augsburg, 7/10 [1550] (p. 94–95); Curione a Betuleius (p. 97: deixou a corte para cuidar do pai doente) |
| "Alegro-me de que tudo isso me tenha acontecido. …Enquanto estive lá, nunca pude pensar em nada elevado nem divino, nem ler os livros dos dois Testamentos." | a Curione, Augsburg, 7/10 [1550] (p. 95); o ano é deduzido |
| Casou-se com um médico alemão, Andreas Grundler; em 1550 deixou a Itália com ele e com o irmão de oito anos, para Schweinfurt | Curione a Betuleius (p. 97); a Curione, Augsburg (p. 95: "fraterculum annos octo natum"; "in patriam mei viri"); epitáfio de Grundler (p. 223); NDB; Treccani |
| 1553: um marquês ocupou a cidade, e os inimigos dele a cercaram | a Curione, 25/7/1554 (p. 160: "eius hostes… vrbem obsidere… coeperunt"); NDB; Treccani |
| Escondiam-se numa adega | idem (p. 161: "in cella vinaria latitare coacti fuimus") |
| Quando o marquês saiu, os sitiantes saquearam e incendiaram a cidade | idem (p. 161: "postridie"); a Cherubina (p. 213); de.wikipedia |
| Roubaram-lhes até as roupas; o marido foi preso duas vezes; ela fugiu sem sapatos | a Curione (p. 161–162); a Cherubina (p. 213–214: "fu pigliato due volte"; "perdetti le scarpe") |
| "Senhor, se me queres viva, manda aos teus anjos que me puxem, porque eu, com certeza, não posso." | a Cherubina, Heidelberg, 8/8/1554 (p. 214: "che mi tirino"), tradução literal do italiano |
| Perdera os livros e quase todos os escritos | a Curione, 25/7/1554 (p. 163); última carta a Curione (p. 187: "alia mea scripta perierunt") |
| Em Heidelberg, adoeceu de vez | a Curione (p. 162–163); última carta a Curione (p. 186) |
| "Se te anunciarem a minha morte, não te aflijas. Eu sei que só então hei de viver, e desejo já partir e estar com Cristo." | última carta a Curione, Heidelberg, 1555, sem data (p. 186) |
| "Perguntei de que sorria tão docemente." / a luz / as flores | Grundler a Curione, 1555, sem data na Opera (p. 188–189) |
| Morreu em 26/10/1555, antes dos 29 anos; o marido e o irmão morreram pouco depois | Grundler a Curione (p. 190); Grundler a Andreas Campanus (p. 200); a lápide de Heidelberg ("Hic cum marito & Aemilio fratre sepulta"); Treccani |
| Curione publicou seus escritos, com salmos que ela pôs em versos gregos; entre eles, o 46 | Opera 1570, p. 224–239; Curione a Olympia (p. 100); Treccani; NDB |
| Legenda: a guerra não foi de católicos contra protestantes | dossiê §4 (o marquês era protestante; Nuremberg, luterana, entre os sitiantes) |
| Legenda: "Os poemas que consegui recompor de memória… os meus outros escritos se perderam." | última carta a Curione (p. 187) |
| Legenda: Salmo 46:1, "Deus nos é refúgio e fortaleza" | Almeida, Londres, 1819, e Nova York, 1848 (nessas edições, v. 2; grafia atualizada) |
Leituras
- Olympia Fulvia Morata, Opera omnia, ed. Celio Secondo Curione (Basileia: Perna, 1570), com as cartas dela e a de Grundler
- A lápide de Heidelberg, Peterskirche (texto na Opera, 1570)
- Neue Deutsche Biographie 18 (1997): "Morata, Olympia Fulvia"
- Dizionario Biografico degli Italiani 76 (Treccani, 2012): "Morato, Olimpia Fulvia"
- A Biblia Sagrada, trad. J. F. de Almeida (Londres, 1819)
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