Graça maravilhosa
“Graça maravilhosa”
Londres, 1788. Um pastor publica uma confissão: "Espero que seja sempre, para mim, motivo de reflexão humilhante que eu tenha sido, um dia, instrumento ativo num negócio diante do qual o meu coração agora estremece." (John Newton, Thoughts upon the African Slave Trade, 1788)
Quem era
John Newton nasceu em Londres em 24 de julho de 1725 (estilo antigo), filho de um capitão da marinha mercante. Foi ao mar com o pai aos 11 anos, segundo o DNB. Recrutado à força para a Marinha, desertou e, a pedido, passou para um navio negreiro que o levou a Serra Leoa (1745).
Ali viveu cerca de 18 meses, ele mesmo tratado como servo de um traficante: "na prática, embora sem o nome, um cativo e escravo eu mesmo" (Thoughts, 1788, p. 2). Isso não diminui o que fez depois, como capitão.
Depois do mar: inspetor de marés em Liverpool (1755–1760), cura de Olney (1764–1780) e reitor de St Mary Woolnoth, em Londres (1780–1807). Com William Cowper preparou os Olney Hymns (1779); os hinos de Cowper levam a letra "C", o nº 41 não.
O hino de 1779
Saiu sem música, nos Olney Hymns (livro I, nº 41), com o título "Faith's review and expectation" (A revisão e a esperança da fé), sobre 1 Crônicas 17:16-17. São seis estrofes; nenhuma fala do tráfico.
A 3ª estrofe: "Por muitos perigos, fadigas e laços já passei; é a graça que me trouxe a salvo até aqui, e a graça me levará para casa." (tradução literal nossa)
A melodia, NEW BRITAIN, é americana: impressa em 1829, sem autor, e unida a este texto por William Walker em 1835. A estrofe "When we've been there ten thousand years" não é de Newton.
Linha do tempo
- 24/7/1725Nasce em Londres
- 1745Vê a costa da Guiné pela primeira vez
- 10/3/1748O temporal no Atlântico Norte: "o começo"
- 1750–1754Capitão: três viagens à Costa do Barlavento, em busca de escravos
- 1754Deixa o mar por uma doença súbita
- 1764An Authentic Narrative; cura de Olney
- 1779Olney Hymns: o hino 41, Amazing grace
- 1788Thoughts upon the African Slave Trade: a confissão pública
- 21/12/1807Morre em Londres
“Durante o tempo em que estive empenhado no tráfico de escravos, nunca tive o menor escrúpulo quanto à sua licitude.”
“During the time I was engaged in the slave trade, I never had the least scruple as to its lawfulness.”
Na mesma página: "às vezes me chocava com um emprego que vivia perpetuamente entre correntes, ferrolhos e grilhões". Em 1788 repetiu: "nunca tive escrúpulo neste ponto, naquele tempo" (Thoughts, p. 3–4).
“…a convicção de que o silêncio, em tal tempo e em tal ocasião, seria, da minha parte, criminoso.”
“…a conviction, that silence, at such a time, and on such an occasion, would, in me, be criminal.”
Ele também escreveu ali "o que fiz, fiz por ignorância" (p. 4), e chamou a própria confissão de tardia (p. 2). A última frase do folheto chama o tráfico de "tão iníquo, tão cruel, tão opressivo, tão destrutivo" (p. 41).
Mito e fato
MitoNewton escreveu Amazing Grace no navio, durante a tempestade.
FatoO hino saiu em Olney, em 1779. Em 1748, Newton nem se considerava crente "no sentido pleno".
MitoAo se converter, ele largou o tráfico.
FatoFoi capitão de navios negreiros de 1750 a 1754 e saiu por doença, não por escrúpulo.
MitoA melodia é um canto de escravos que Newton ouviu nos navios.
FatoNEW BRITAIN apareceu impressa nos EUA em 1829, sem autor. Nenhuma fonte a liga a Newton.
O que se ouve no episódio
A narração completa, com as falas dos personagens. As falas são palavras registradas, com a fonte na lista abaixo.
NarradorLondres, 1788. Um pastor publica uma confissão:
John NewtonEspero que seja sempre, para mim, motivo de reflexão humilhante que eu tenha sido, um dia, instrumento ativo num negócio diante do qual o meu coração agora estremece.
NarradorJohn Newton era marinheiro desde menino. Em 1748, voltando da África, o navio quase afundou num temporal. Ele mesmo contou o que disse:
John NewtonSe isto não der certo, o Senhor tenha misericórdia de nós.
NarradorAnos depois, escreveu:
John NewtonConsidero isto o começo da minha volta para Deus; mas não posso me considerar crente, no sentido pleno, senão bastante tempo depois.
NarradorE ele não deixou o tráfico. De 1750 a 54, foi capitão em três viagens à África para comprar escravos: homens, mulheres e meninos. Saiu por doença, não por consciência:
John NewtonNunca tive o menor escrúpulo quanto à sua licitude.
NarradorEm 1764, virou pastor em Olney, uma vila pobre, e escreveu hinos para o povo. Em 1779, publicou este:
John NewtonGraça maravilhosa! Quão doce o som, que salvou um miserável como eu! Eu estava perdido, mas agora sou achado; era cego, mas agora vejo.
NarradorSó em 1788 ele se opôs ao tráfico em público, numa confissão que, escreveu, chegava tarde demais. Sobre os africanos vendidos:
John NewtonMaridos e mulheres, pais e filhos, irmãos e irmãs têm de se separar de repente outra vez, provavelmente para nunca mais se verem.
NarradorMorreu em 1807. O hino não fala do tráfico. A confissão fala.
Galeria
Traduções literais nossas. Nenhum número de pessoas transportadas nas viagens de Newton: o diário de bordo não foi lido. A data de 1748 é a do calendário antigo (21 de março no novo).
John Newton, gravura de John Moffat (sem data; traz "Died 1807") · National Library of Wales · Domínio público (`File:Portrait of John Newton (4669866).jpg`).
Rev. John Newton, gravura de Thomas Frazer Ranson segundo John Russell, início do séc. XIX · Royal Museums Greenwich · Domínio público (`File:Rev. John Newton RMG PU3099.tiff`).
Olney Hymns, Londres, 1779, p. 53: o hino 41 · Library of Congress · Domínio público (`File:Olney Hymns page 53 Amazing Grace.jpg`).
A igreja de Olney vista de Emberton, pintura de James Andrews (1734–1817) · Cowper and Newton Museum · Domínio público (`File:James Andrews (1734-1817) - View of Olney Church from Emberton, Buckinghamshire - OLNCN-161 - Cowper and Newton Museum.jpg`).
A ilha de Bunce, Serra Leoa, em 1805, segundo aquarela de Joseph Corry · Domínio público (`File:Bunce Island 1805.jpg`). É da mesma costa; as fontes lidas não dizem que Newton esteve ali.
King William Street e St Mary Woolnoth, Londres, gravura de John Woods, 1840 · Yale Center for British Art · CC0 (`File:John Woods - King William Street and St Mary Woolnoth - B1977.14.15668 - Yale Center for British Art.jpg`). Newton foi reitor de St Mary Woolnoth de 1780 a 1807.
"New Britain" com Amazing grace, The Southern Harmony, ed. de 1847 · Library of Congress · Domínio público (`File:New Britain Southern Harmony Amazing Grace.jpg`).
Para salvar
O resumo do episódio em oito cartões. Deslize para o lado.







Fontes de cada afirmação
Afirmações e fontes
| Narração | Fonte |
|---|---|
| Londres, mil setecentos e oitenta e oito. Um pastor publica uma confissão. NEWTON: "Espero que seja sempre, para mim, motivo de reflexão humilhante que eu tenha sido, um dia, instrumento ativo num negócio diante do qual o meu coração agora estremece." Na tela: "Londres, 1788" · "Thoughts upon the African Slave Trade, Londres, 1788, p. 2 · tradução literal nossa" | Thoughts, 1788, folha de rosto ("Rector of St. Mary Woolnoth") e p. 2: "I hope it will always be a subject of humiliating reflection to me, that I was, once, an active instrument, in a business at which my heart now shudders." (imagem; e 2ª ed., 1788, OCR) |
| John Newton era marinheiro desde menino. Na tela: "John Newton (1725–1807)" · "Londres, 1725 – Londres, 1807" | DNB (1894): nascido em Londres, 24/7/1725 (estilo antigo); ao mar com o pai aos 11 anos (1736); Cecil 1809, p. 2 ("1725, old style"); morte: Cecil 1809, p. 167, e DNB |
| Em mil setecentos e quarenta e oito, voltando da África, o navio quase afundou num temporal. Na tela: "Atlântico Norte, 10 de março de 1748 (21 de março no calendário novo)" | An Authentic Narrative, 1764, cartas VII–VIII, p. 109–113; p. 113: "THE 10th (that is in the present stile the 21st) of March, is a day much to be remembered by me"; DNB |
| Ele mesmo contou o que disse. NEWTON: "Se isto não der certo, o Senhor tenha misericórdia de nós." Na tela: "An Authentic Narrative, Londres, 1764, carta VII, p. 111 · relato do próprio Newton, 15 anos depois · tradução literal nossa" | Narrative, 2ª ed. 1764, p. 111 (imagem): "I said, almost without any meaning, 'If this will not do, the Lord have mercy upon us.'" As cartas são de jan.–fev. de 1763. É o relato dele; o vídeo não chama a tempestade de milagre |
| Anos depois, escreveu. NEWTON: "Considero isto o começo da minha volta para Deus; mas não posso me considerar crente, no sentido pleno, senão bastante tempo depois." Na tela: "[…] considero isto o começo da minha volta para Deus […]; mas não posso me considerar crente (no sentido pleno da palavra) senão bastante tempo depois." · "An Authentic Narrative, 1764, carta IX, p. 133" | Narrative, 1764, carta IX, p. 133 (imagem): "Therefore I consider this as the beginning of my return to God, or rather of his return to me; but I cannot consider myself to have been a believer (in the full sense of the word) till a considerable time afterwards." |
| E ele não deixou o tráfico. De mil setecentos e cinquenta a cinquenta e quatro, foi capitão em três viagens à África para comprar escravos. Na tela: "1750 – 1754" · "capitão de navios negreiros" · "3 viagens à Costa do Barlavento (Serra Leoa e costa vizinha)" | Thoughts, 1788, p. 3 (imagem): "I soon revisited the place of my captivity, as mate of a ship, and, in the year 1750, I was appointed commander, in which capacity I made three voyages to the Windward Coast, for Slaves."; DNB ("Three voyages followed his marriage") |
| homens, mulheres e meninos | Thoughts, p. 33 (imagem): os alojamentos dos navios, "for the men, the boys, and the women". Nenhum número de pessoas transportadas: o diário de bordo (ed. 1962) não foi lido |
| Saiu por doença, não por consciência. Na tela: "1754: deixou o mar por um ataque súbito de doença, dois dias antes de zarpar" | Thoughts, p. 3: "I fitted out for a fourth voyage, and was upon the point of sailing, when I was arrested by a sudden illness, and I resigned the ship to another Captain."; Narrative, p. 192–193; Cecil 1809, p. 90–91 |
| NEWTON: "Nunca tive o menor escrúpulo quanto à sua licitude." Na tela: "An Authentic Narrative, 1764, carta XIII, p. 192" · "fala completa: 'Durante o tempo em que estive empenhado no tráfico de escravos, nunca tive o menor escrúpulo quanto à sua licitude'" | Narrative, 1764, carta XIII, p. 192 (imagem): "During the time I was engaged in the slave trade, I never had the least scruple as to its lawfulness"; confirmado em 1788 (Thoughts, p. 4): "I never had a scruple upon this head, at the time" |
| Em mil setecentos e sessenta e quatro, virou pastor em Olney, uma vila pobre, e escreveu hinos para o povo. Na tela: "Olney, Buckinghamshire · cura da paróquia, 1764–1780" | DNB (ordenado em 29/4 e 17/6/1764; cura de Olney, 1764–1780; vila de renda de bilros, "grande população pobre"); prefácio dos Olney Hymns, p. xii: os hinos compostos para "my dear friends in the parish and neighbourhood of Olney" |
| Em mil setecentos e setenta e nove, publicou este. NEWTON: "Graça maravilhosa! Quão doce o som, que salvou um miserável como eu! Eu estava perdido, mas agora sou achado; era cego, mas agora vejo." Na tela: "Olney Hymns, Londres, 1779, livro I, hino 41, 'Faith's review and expectation' (A revisão e a esperança da fé), 1 Crônicas 17:16-17, p. 53" · "John Newton, 1779 · tradução literal nossa" | Olney Hymns, 1779, folha de rosto, prefácio assinado em Olney em 15/2/1779 (p. xiii) e p. 53 (imagens): "AMazing grace! (how sweet the sound) / That sav'd a wretch like me! / I once was lost, but now am found, / Was blind, but now I see." O hino 41 não leva o "C" dos hinos de Cowper |
| Na tela: "ligado, segundo estudiosos, ao sermão de Ano-Novo de 1773 sobre 1 Crônicas 17:16-17 (notas de sermão de Newton, Lambeth Palace Library)" | Hymnology Archive (Fenner e Rouse, 2018, rev. 2025), citando as notas de sermão (Lambeth Palace, MS 2940): o hino "seems to have been written in connection with" o sermão de 1/1/1773. Manuscritos não vistos: por isso "segundo estudiosos" |
| Só em mil setecentos e oitenta e oito ele se opôs ao tráfico em público, numa confissão que, escreveu, chegava tarde demais. Na tela: "'uma confissão pública, que, por mais sincera, chega tarde demais para impedir, ou reparar, a miséria e o mal de que fui, outrora, cúmplice' (p. 2)" | Thoughts, 1788, p. 2 (imagem): "a public confession, which, however sincere, comes too late to prevent, or repair, the misery and mischief to which I have, formerly, been accessary"; DNB ("In 1788 he aided Wilberforce by publishing his own experiences of the slave trade"). Entre 1754 e 1788 não foi achado nenhum texto público dele contra o tráfico |
| Sobre os africanos vendidos. NEWTON: "Maridos e mulheres, pais e filhos, irmãos e irmãs têm de se separar de repente outra vez, provavelmente para nunca mais se verem." Na tela: "Thoughts upon the African Slave Trade, Londres, 1788, p. 39 · tradução literal nossa" | Thoughts, p. 39 (imagem): "Husbands and Wives, Parents and Children, Brothers and Sisters, must suddenly part again, probably to meet no more." O "outra vez" guarda a separação anterior, no navio |
| Morreu em mil oitocentos e sete. Na tela: "Londres, 21 de dezembro de 1807" | Cecil 1809, p. 167; DNB (enterrado na cripta de St Mary Woolnoth em 31/12/1807; transladado para Olney em 1893) |
| O hino não fala do tráfico. A confissão fala. | Olney Hymns, 1779, p. 53–54 (as seis estrofes: nenhuma menciona tráfico, África ou escravos); Thoughts, 1788 |
| Fecho, na tela: "Quem sou eu, Jehovah Deus? e qual é minha casa, que me trouxeste até aqui?" · "1 Crônicas 17:16 (Almeida, 1819) · o texto que Newton pôs sobre o hino" | Almeida, Londres, 1819, p. 428 (imagem): "quem sou eu, JEHOVAH Deus? e qual he minha casa, que me trouxeste até aqui?"; Nova York, 1848 (as mesmas palavras). Grafia atualizada. Newton pôs "I. Chronicles. Chap. xvii. 16, 17" no título do hino |
| O hino, na tela: "Amazing grace! (how sweet the sound) / That sav'd a wretch like me! / I once was lost, but now am found, / Was blind, but now I see." · "Outrora eu estava perdido, mas agora sou achado" · "John Newton, Olney Hymns, 1779 (publicado sem música) · melodia NEW BRITAIN, americana, 1829, unida ao texto em 1835 · trad. literal nossa" | Olney Hymns, 1779, p. 53 (texto, sem música); melodia: W. Walker, The Southern Harmony, ed. de Filadélfia (IA: 1847), p. 8, e B. F. White e E. J. King, The Sacred Harp, 1844, p. 45 (as 36 notas concordam; é o mesmo arranjo reimpresso); 1ª impressão em 1829 (Columbian Harmony, Cincinnati, como ST. MARY'S e GALLAHER) e união ao texto em 1835 (Walker), segundo a Hymnology Archive. Arranjo e gravação nossos |
| Legenda: a confissão de 1788 por inteiro ("Talvez eu esteja obrigado, em consciência, a tomar a vergonha sobre mim mesmo…") | Thoughts, 1788, p. 2 |
| Carrossel: Serra Leoa, 1745–1747, "na prática, embora sem o nome, um cativo e escravo eu mesmo" | Thoughts, p. 2–3; DNB |
| Carrossel: "às vezes me chocava com um emprego que vivia perpetuamente entre correntes, ferrolhos e grilhões" | Narrative, 1764, p. 192 |
| Carrossel: "…a convicção de que o silêncio, em tal tempo e em tal ocasião, seria, da minha parte, criminoso"; "o que fiz, fiz por ignorância"; "tão iníquo, tão cruel, tão opressivo, tão destrutivo" | Thoughts, p. 2, p. 4 e p. 41 |
| Carrossel: a 3ª estrofe; "When we've been there ten thousand years" não é de Newton | Olney Hymns, 1779, p. 53–54; Hymnology Archive (raiz em 1784–1790; ligada a Amazing grace em 1852 e em hinário só em 1909) |
| Carrossel: inspetor de marés em Liverpool (1755–1760); reitor de St Mary Woolnoth (1780–1807); Cowper em Olney | DNB (1894); Olney Hymns, prefácio, p. iv |
Leituras
- John Newton, An Authentic Narrative (Londres, 1764)
- John Newton e William Cowper, Olney Hymns (Londres, 1779)
- John Newton, Thoughts upon the African Slave Trade (Londres, 1788)
- Richard Cecil, Memoirs of the Rev. John Newton (1808; ed. de Nova York, 1809)
- Dictionary of National Biography 40 (1894), "Newton, John"
- W. Walker, The Southern Harmony (ed. de 1847); C. Fenner e M. Rouse, Hymnology Archive
- A Biblia Sagrada, trad. J. F. de Almeida (Londres, 1819), 1 Cr 17:16
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