Joana d'Albret
“A rainha de Navarra”
Uma rainha decide se atravessa, com o filho, um país em guerra. Ela escreveu: "…as lágrimas me vieram aos olhos, com receio de que me separassem dos meus filhos." (Joana d'Albret, Mémoires, 1568)
Quem era
Nasceu em 1528, filha única de Henrique d'Albret, rei de Navarra, e de Margarida de Navarra, irmã de Francisco I.
Casou-se em 1548 com Antônio de Bourbon. Com a morte do pai, em 1555, tornou-se rainha de Navarra e senhora soberana do Béarn.
O filho, Henrique, nascido em 1553, seria Henrique IV da França.
Sem santinho
Em 1568, tomou partido: juntou-se aos reformados em armas. Os motivos, escreveu, lhe pareceram tão justos que não podia fazer menos do que oferecer "tudo, sem reservar nada".
Em 26 de novembro de 1571, as suas Ordenanças Eclesiásticas proibiram o culto católico em todo o Béarn. Os Estados do Béarn tinham pedido a proibição "sob pena da vida" (Bordenave).
As escolas e os cargos de magistrado ficaram só para reformados.
Linha do tempo
- 1528Nasce, filha do rei de Navarra e de Margarida de Navarra
- 1548Casa-se com Antônio de Bourbon
- 1555Rainha de Navarra, com a morte do pai
- Natal de 1560Profissão pública da fé reformada, em Pau (segundo Bordenave)
- 1562Antônio volta ao lado católico; o filho, de 8 anos, tem de ficar com ele
- set. 1568Vai com o filho para La Rochelle e escreve os Mémoires
- 1571Ordenanças Eclesiásticas do Béarn; Novo Testamento em basco, dedicado a ela
- junho de 1572Morre em Paris, de doença; o filho casa em 18 de agosto
“O medo de uma fuga vergonhosa me fez empalidecer; o perigo de uma prisão cruel me fez tremer; as lágrimas me vieram aos olhos, com receio de que me separassem dos meus filhos.”
“Car la crainte d'une honteuse fuite me fit pallir; le danger d'une cruelle prison me fit frémir; les larmes me vindrent aux yeux de l'appréhension de la séparation qu'on pourroit faire de mes enfans et de moy.”
“Meu filho, se alguma vez orastes a Deus, peço-vos que seja agora… para que este casamento não se faça na sua ira, para nos castigar, mas na sua misericórdia…”
“…mon fils, si jamais vous priastes Dieu, je vous prie que se soit maintenant; … que ce mariage ne se fasse en son ire pour nous punir, mais en sa miséricorde…”
Mito e fato
MitoFoi envenenada com luvas perfumadas.
FatoO boato correu já no tempo dela, e Bordenave o registra; registra também que os médicos a trataram de uma pleurisia. É lenda, sem prova.
MitoConverteu-se no Natal de 1560, por obra de Beza.
FatoBeza esteve em Nérac em 1560, mas a História eclesiástica nomeia como apoio os pastores Boisnormand e Henry. Pau e o Natal vêm do cronista Bordenave.
O que se ouve no episódio
A narração completa, com as falas dos personagens. As falas são palavras registradas, com a fonte na lista abaixo.
Narrador1568. Uma rainha decide se atravessa, com o filho, um país em guerra. Ela escreveu:
Joana D'AlbretO medo de uma fuga vergonhosa me fez empalidecer; o perigo de uma prisão cruel me fez tremer; as lágrimas me vieram aos olhos, com receio de que me separassem dos meus filhos.
NarradorEra Joana d'Albret, rainha de Navarra e senhora do Béarn. Em 1560, o cunhado foi preso e o marido corria perigo. Segundo o cronista Bordenave, no Natal, em Pau, tomou a ceia à maneira reformada. Depois, escreveu:
Joana D'AlbretAprouve a Deus, pela sua graça… receber-me na sua Igreja. Desde então, pela mesma graça, ele me fez perseverar nela.
NarradorO marido, Antônio de Bourbon, esperando recuperar a Navarra espanhola, voltou para o lado católico. O filho, de oito anos, teve de ficar com ele, e ela voltou para o Béarn.
Joana D'AlbretO falecido rei, meu marido… me foi um duro espinho, não direi no pé, mas no coração.
NarradorSeis anos depois, tomou partido: juntou-se aos reformados em armas e levou o filho, Henrique, para La Rochelle.
Joana D'AlbretA carne me assaltava, e o espírito me defendia… Contudo, fiquei por fim vitoriosa, pela graça do meu Deus.
NarradorEm 1571, as suas Ordenanças Eclesiásticas proibiram o culto católico em todo o Béarn. No mesmo ano saiu o Novo Testamento em basco, de Joannes Leiçarraga, dedicado a ela. No ano seguinte, foi negociar o casamento do filho com Margarida de Valois, irmã do rei, católica. Escreveu ao filho:
Joana D'AlbretMeu filho, se alguma vez orastes a Deus, peço-vos que seja agora… para que este casamento não se faça na sua ira, para nos castigar, mas na sua misericórdia.
NarradorEm junho, em Paris, adoeceu e morreu. Correu que fora envenenada com luvas perfumadas: é lenda, sem prova. Em agosto, o filho casou. Seis dias depois, veio a noite de São Bartolomeu. Tinha escrito, com o salmo:
Joana D'AlbretPara onde irei, longe da tua face? Ao céu, à terra, aos abismos? Tu lá estás.
Galeria
Bordenave escreve "1561 à la cène de Noël" (o ano contado a partir do Natal); 1560 é a leitura de Ruble. Traduções nossas.
Joana d'Albret. Oficina de François Clouet, anos 1560 · BnF · Domínio público.
Joana d'Albret. Thomas de Leu, gravura, 1597 · National Gallery of Art · CC0.
Novo Testamento em basco, de Joannes Leiçarraga: a folha de rosto · La Rochelle, Pierre Hautin, 1571 · Domínio público. (Folha de rosto = p. 14 do PDF do Commons; as p. 1–11 são a encadernação, e a p. 12 é uma gravura de Thomas de Leu colada no exemplar.)
La Rochelle. Braun & Hogenberg, Civitates orbis terrarum, séc. XVI · Domínio público.
Joana d'Albret criança. Desenho atribuído a François Clouet, c. 1540 · Musée Condé, Chantilly (foto: KU Leuven) · Domínio público · recortada (sem a moldura e os rótulos do diapositivo).
Para salvar
O resumo do episódio em oito cartões. Deslize para o lado.







Fontes de cada afirmação
Afirmações e fontes
| Narração | Fonte |
|---|---|
| 1568: uma rainha decide se atravessa, com o filho, um país em guerra | Mémoires p. 87–88 (os "dangers des chemins"); Ruble, nota p. 2 (deixa Nérac em 6/9/1568; chega a La Rochelle antes de 28/9) |
| "O medo de uma fuga vergonhosa me fez empalidecer; o perigo de uma prisão cruel me fez tremer; as lágrimas me vieram aos olhos, com receio de que me separassem dos meus filhos." | Mémoires p. 88 ("Car la crainte d'une honteuse fuite me fit pallir…"); a última oração com a sintaxe ajustada: na tela, "tradução nossa" |
| Rainha de Navarra e senhora do Béarn | Leiçarraga 1571, dedicatória ("Roine de Navarre, Dame souveraine de Béarn") |
| Em 1560, o cunhado foi preso e o marido corria perigo | Beza, Histoire ecclésiastique (1580), ed. Baum-Cunitz, t. I, p. 372 (a prisão de Condé em Orléans, 31/10/1560); Bordenave p. 108 |
| Segundo o cronista Bordenave, no Natal, em Pau, tomou a ceia à maneira reformada. Na tela: "Pau, Natal de 1560 (segundo Bordenave)" | Bordenave p. 108 ("communiqua au sacrement de la sainte cène suivant la forme de ladite religion"). Bordenave escreve "L'an donc 1561 à la cène de Noël": conta o ano a partir do Natal. O 1560 é a leitura de Ruble (nota p. 2: "fixe au 25 décembre 1560"), apoiada na ordem do próprio texto (depois da morte de Francisco II, 5/12/1560) e nas palavras dela ("depuis l'an mil cinq cents soixante", Mémoires p. 2) |
| "Aprouve a Deus, pela sua graça… receber-me na sua Igreja. Desde então, pela mesma graça, ele me fez perseverar nela." | Mémoires p. 2–3; o "…" corta "tirar-me da idolatria, em que eu estava mergulhada demais, e" |
| O marido, Antônio de Bourbon, esperando recuperar a Navarra espanhola, voltou para o lado católico | Mémoires p. 4–5 ("le paissans d'une vaine espérance de ravoir nostre royaume"); Ruble, notas p. 3 e 5 |
| O filho, de oito anos, teve de ficar com ele, e ela voltou para o Béarn. Na tela: "1562" | Mémoires p. 4 ("l'aage de huict ans"); Ruble, nota p. 4 ("Obligée de laisser son fils à son mari en mars 1562") e nota p. 3 (partida em junho de 1562). A data da partida diverge (Ruble: junho; en.wikipedia: março, com parada em Vendôme): "1562" cobre as duas |
| "O falecido rei, meu marido… me foi um duro espinho, não direi no pé, mas no coração." | Mémoires p. 3; o "…" corta "o qual, tendo-se afastado daquele primeiro zelo que tinha" |
| Seis anos depois, tomou partido: juntou-se aos reformados em armas e levou o filho, Henrique, para La Rochelle | Mémoires p. 81 (J8: "pour mon Dieu et mon Roy le tout, sans rien réserver") e p. 90; Ruble, nota p. 2 |
| "A carne me assaltava, e o espírito me defendia… Contudo, fiquei por fim vitoriosa, pela graça do meu Deus." | Mémoires p. 90 ("La chair m'assailloit et l'esprit me défendoit") e p. 91 ("Toutes fois je suis demeurée enfin victorieuse par la grâce de mon Dieu") |
| Em 1571, as suas Ordenanças Eclesiásticas proibiram o culto católico em todo o Béarn. Na tela: "Ordenanças Eclesiásticas, Pau, 26 de novembro de 1571" | Rochambeau, inventário nº CLXXXIV ("26 novembre 1571. — Pau. Ordonnances ecclésiastiques de Jehanne d'Albret…, en 77 articles"); Bordenave p. 319–321 (os Estados pedem em 31/10/1571; "l'exercice d'icelle défendu au peuple") |
| No mesmo ano saiu o Novo Testamento em basco, de Joannes Leiçarraga, dedicado a ela. Na tela: "Testamentu Berria, La Rochelle, 1571" | Leiçarraga 1571, folha de rosto ("Rochellan, Pierre Hautin, Imprimiçale, 1571") e dedicatória ("A la Rochelle le vingt deuxieme d'Aoust, 1571"), na reedição de Linschmann e Schuchardt (1900) |
| No ano seguinte, foi negociar o casamento do filho com Margarida de Valois, irmã do rei, católica | Rochambeau nº CCXXXIII e CCXXXVI; dossiê §1 |
| "Meu filho, se alguma vez orastes a Deus, peço-vos que seja agora… para que este casamento não se faça na sua ira, para nos castigar, mas na sua misericórdia." Na tela: "Carta ao filho, 21 de fevereiro de 1572" | Rochambeau nº CCXXXIII, p. 340; o "…" corta "garantindo-vos que eu oro a ele sem cessar, para que me assista nesta negociação e"; a frase segue com "para a sua glória e o nosso descanso" |
| Em junho, em Paris, adoeceu e morreu | Bordenave p. 333 ("y mourut le 10 de juin 1572"); Rochambeau, índice ("meurt le 9 juin 1572"): por isso só "em junho" |
| Correu que fora envenenada com luvas perfumadas: é lenda, sem prova | Bordenave p. 333 (três opiniões: uma refeição; "un parfumeur italien avec une paire de gans parfumés"; "une plurésie", que foi o que os médicos trataram) |
| Em agosto, o filho casou. Seis dias depois, veio a noite de São Bartolomeu | Bordenave p. 332–333 (o casamento diante de Notre-Dame); fr.wikipedia (18/8/1572; a noite de 23 para 24/8). Só a data: o massacre é o tema do ep. 16 |
| "Para onde irei, longe da tua face? Ao céu, à terra, aos abismos? Tu lá estás." | Mémoires p. 89 ("Où iray-je hors de devant ta face? au ciel, en terre, aux abysmes? Tu y es."): a paráfrase dela do Salmo 139, dita para mostrar que ninguém escapa da mão de Deus "par quelques prudens moyens" |
| Na tela: "Para onde me iria de teu Espírito? E para onde fugiria de tua face? Se subisse aos céus, lá tu estás…" (Salmo 139:7–8, Almeida, 1819) | A Biblia Sagrada, trad. Almeida, Londres, 1819, Psalmo CXXXIX (grafia atualizada; o v. 8 cortado depois de "lá tu estás") |
| Legenda e carrossel: filha única de Henrique d'Albret e de Margarida de Navarra; casamento em 1548; rainha em 1555; Henrique nasce em 1553 | Dossiê §0–§1 (Rochambeau, índice; Ruble, nota p. 4) |
| Legenda e carrossel: os motivos "tão justos" e "tudo, sem reservar nada" | Mémoires p. 81 (J8) |
| Carrossel: os Estados pediram a proibição "sob pena da vida" | Bordenave p. 319 ("à peine de la vie") |
| Legenda e carrossel: escolas e cargos de magistrado só para reformados | Bordenave p. 320–322 |
| Legenda: "lembrando-me sempre do mandamento expresso de Deus, que é não tirar nem acrescentar nada à sua palavra" | Leiçarraga, dedicatória francesa, La Rochelle, 22/8/1571 |
| Carrossel (mito): "convertida por Beza" | Beza esteve em Nérac de agosto a novembro de 1560; a História eclesiástica nomeia como apoio os pastores François Le Gay (Boisnormand) e Pierre Henry. O roteiro diz "profissão pública", não "convertida por Beza" |
| Carrossel (mito): as luvas | Bordenave p. 333; a autópsia (Strage 1976, só via secundária) não foi conferida e fica fora |
Ficaram de fora de propósito: a carta ao visconde de Gourdon (1555) e a frase do filho "no fundo do mar" (texto original não encontrado); a carta ao cardeal d'Armagnac (1563, só via Olhagaray, não lida); a palavra "idolatria" e as frases ácidas sobre o cardeal de Lorena, a corte e Margarida; a guerra de 1569 no Béarn (violência dos dois lados); Catarina de Médici; a morte de Antônio no cerco de Ruão e o empréstimo das joias à Inglaterra; a idade dela na morte (o dia do nascimento diverge).
Leituras
- Jeanne d'Albret, Mémoires ("Ample déclaration", La Rochelle, 1568), ed. A. de Ruble (Paris, 1893)
- Lettres d'Antoine de Bourbon et de Jehanne d'Albret, ed. Rochambeau (Paris, 1877)
- Nicolas de Bordenave, Histoire de Béarn et Navarre, ed. P. Raymond (Paris, 1873)
- Histoire ecclésiastique des Églises réformées (1580), ed. Baum e Cunitz, t. I (1883)
- Joannes Leiçarraga, Testamentu Berria (La Rochelle: Pierre Hautin, 1571)
- A Biblia Sagrada, trad. J. F. de Almeida (Londres, 1819), Salmo 139
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