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Os Reformadores
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Episódio 12 · 1557 – 1558

Os mártires da Guanabara

“Uma confissão no Rio”

Tinham doze horas para responder por escrito. A resposta começou assim: "…todos os cristãos devem estar sempre prontos para dar a razão da esperança que há neles…" (Confissão de fé, baía de Guanabara, 1558)

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Quem eram

Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon e André La Fon eram leigos franceses. La Fon era alfaiate; Bourdon, torneiro. Não existe retrato de nenhum deles.

Saíram de Genebra em 10 de setembro de 1556, num grupo de catorze, com dois pastores, Pierre Richier e Guillaume Chartier, a pedido de Villegaignon, comandante da colônia francesa na baía de Guanabara.

Jean de Léry, que viajou com eles, contou a viagem; o relato de 1561, reproduzido por Jean Crespin, guardou a Confissão.

A versão de Villegaignon

Os dois lados confirmam: Villegaignon pediu os genebrinos, recebeu-os e rompeu com eles por causa da doutrina da Ceia.

Em 1561, ele assumiu a execução e escreveu que eles tinham voltado para perturbar a religião da colônia e levantar seus homens contra ele (Response aux libelles, Paris).

O detalhe do martírio vem de um só relato protestante, o de 1561, que Crespin reproduziu. Por isso o vídeo diz "segundo Crespin".

Linha do tempo

  1. 10/9/1556Saem de Genebra catorze homens, com os pastores Richier e Chartier
  2. 10/3/1557Primeiro culto deles no forte Coligny: canta-se o Salmo 5 (Léry)
  3. 1557Depois da Ceia de Pentecostes, Villegaignon rompe com eles
  4. 4/1/1558O grupo parte para a França num navio velho
  5. jan. 1558Cinco voltam à terra num barco
  6. início de 1558Recebem os artigos, com doze horas para responder; quatro assinam a Confissão
  7. fev. 1558Declarados hereges e postos a ferros; três são lançados ao mar; La Fon é poupado
  8. 1558Léry entrega a Confissão ao impressor Jean Crespin
A Confissão
“Segundo a doutrina de São Pedro apóstolo, em sua primeira epístola, todos os cristãos devem estar sempre prontos para dar a razão da esperança que há neles, e isso com toda a mansidão e benignidade.”

“Suiuant la doctrine de S. Pierre Apostre, en sa premiere Epistre, tous Chrestiens doiuent estre tousiours prests de rendre raison de l'esperance qui est en eux, & ce en toute douceur & benignité”

Confissão de fé, 1558, assinada por Jean du Bordel, Matthieu Vermeil, Pierre Bourdon e André la Fon (grafia de Crespin) · Crespin, Histoire des martyrs; relato de 1561
No rochedo
“Ó Deus eterno… queiras, por tua clemência, despertar-te e assistir aos teus, tomando a causa deles, que é a tua, em tua mão…”

“O Dieu eternel… vueilles par ta clemence te resueiller & assister aux tiens, prenant leur cause, qui est la tienne, en ta main…”

Matthieu Verneuil, fevereiro de 1558, segundo o relato de 1561 e Jean Crespin, Histoire des martyrs

Mito e fato

MitoEscreveram a Confissão em doze horas.

FatoVillegaignon mandou que respondessem por escrito dentro de doze horas. O relato não diz quanto tempo levaram.

MitoForam enforcados.

FatoTrês foram lançados ao mar, junto a um rochedo. André La Fon cedeu e foi poupado.

O que se ouve no episódio

A narração completa, com as falas dos personagens. As falas são palavras registradas, com a fonte na lista abaixo.

NarradorBaía de Guanabara, começo de 1558. Cinco franceses recebem uma lista de artigos sobre a fé. Têm 12 horas para responder por escrito. Tinham saído de Genebra em 1556, com dois pastores, a pedido de Villegaignon, comandante da colônia francesa na baía. No primeiro culto no forte Coligny, cantou-se o Salmo cinco. Depois veio a disputa sobre a Ceia, e Villegaignon rompeu com eles. Em janeiro, o grupo partiu para a França; cinco voltaram à terra num barco. Villegaignon os recebeu, mas passou a desconfiar que fossem espiões. Jean du Bourdel, o mais instruído deles, escreveu as respostas e as leu aos companheiros. Quatro assinaram. A confissão começa assim:

Jean Du BourdelSegundo a doutrina de São Pedro apóstolo… todos os cristãos devem estar sempre prontos para dar a razão da esperança que há neles, e isso com toda a mansidão e benignidade.

NarradorVillegaignon os declarou hereges e os pôs a ferros. Na prisão, segundo Crespin, oravam e cantavam salmos. Anos depois, o próprio Villegaignon escreveu que eles tinham voltado para perturbar a religião da colônia e levantar seus homens contra ele. Numa manhã de fevereiro, Bourdel foi levado a um rochedo junto ao mar, cantando salmos pelo caminho. Depois, Matthieu Verneuil, que orou:

Matthieu VerneuilÓ Deus eterno… queiras, por tua clemência, despertar-te e assistir aos teus, tomando a causa deles, que é a tua, em tua mão…

NarradorAndré La Fon, o alfaiate, cedeu e foi poupado. Pierre Bourdon, doente, foi trazido da terra firme. Os três foram lançados ao mar. Naquele mesmo ano, Jean de Léry entregou a confissão ao impressor Jean Crespin.

Galeria

Nas fontes: Jean du Bordel; Matthieu Vermeil (Léry escreve Verneuil). O dia exato da execução não é certo: só "fevereiro de 1558". Traduções literais nossas.

Jean de Léry, Histoire d'un voyage faict en la terre du Bresil, 1578, folha de rosto · Domínio público.
Histoire des choses memorables advenues en la terre du Bresil, [Genebra], 1561 · Domínio público.
La France Antarctique autrement le Rio Ianeiro, mapa de Pierre Duval, séc. XVII · BnF · Domínio público.
Ilha de Villegaignon, foto de 1894 · Coleção Thereza Christina Maria, Biblioteca Nacional · Domínio público.
Jean de Léry, Histoire d'un voyage, 2ª ed., [Genebra], 1580, p. 56: o Salmo 5 no primeiro culto · Domínio público.

Para salvar

O resumo do episódio em oito cartões. Deslize para o lado.

Cartão 1 do resumo de Os mártires da GuanabaraCartão 2 do resumo de Os mártires da GuanabaraCartão 3 do resumo de Os mártires da GuanabaraCartão 4 do resumo de Os mártires da GuanabaraCartão 5 do resumo de Os mártires da GuanabaraCartão 6 do resumo de Os mártires da GuanabaraCartão 7 do resumo de Os mártires da GuanabaraCartão 8 do resumo de Os mártires da Guanabara

Fontes de cada afirmação

Afirmações e fontes

Narração Fonte
Baía de Guanabara, começo de 1558: cinco franceses recebem uma lista de artigos sobre a fé; têm doze horas para responder por escrito Crespin II, p. 509 ("commanda que dans douze heures, ils deliberassent de respondre par escrit"); relato de 1561, o mesmo texto; Léry 1578 (partida em 4/1/1558) e Crespin p. 508 ("douze iours entiers") para a data
Tinham saído de Genebra em 1556 (10 de setembro), com dois pastores, a pedido de Villegaignon, comandante da colônia francesa na baía Léry 1580, cap. I (o pedido de ministros e de gente instruída; "partismes de la cité de Geneue le dixiesme de Septembre l'an 1556"); Crespin II, p. 452–454
No primeiro culto no forte Coligny (10 de março de 1557), cantou-se o Salmo 5 Léry 1580, cap. VI, p. 55–56 ("le Pseaume cinquiesme, Aux paroles que ie veux dire, &c. fut chanté en l'assemblee")
Depois veio a disputa sobre a Ceia, e Villegaignon rompeu com eles Léry 1580, cap. VI (depois da Ceia de Pentecostes de 1557); Villegaignon, Response aux libelles, 1561 (mandou Chartier a Calvino "auec memoire des choses que i'auois trouué mauuaises en sa doctrine")
Em janeiro (de 1558), o grupo partiu para a França; cinco voltaram à terra num barco Léry 1578 e 1580 ("quatrième de Ianuier"; "Pierre Bordon, Iean du Bordel, Matthieu Vernueil, André la Fon & Iaques le Balleur… s'en retournerent en la terre du Bresil")
Villegaignon os recebeu, mas passou a desconfiar que fossem espiões Crespin II, p. 507–508 ("enuoyez pour espies"); o próprio Villegaignon (1561) diz que voltaram para "conciter mes gens contre moy"
Jean du Bourdel, o mais instruído deles, escreveu as respostas e as leu aos companheiros. Quatro assinaram Crespin II, p. 510 ("le plus ancien & mieux instruit aux lettres"; "leur en faisant la lecture plusieurs fois"; "Chacun la signe de sa propre main"); p. 513: os quatro nomes
BOURDEL: "Segundo a doutrina de São Pedro apóstolo… todos os cristãos devem estar sempre prontos para dar a razão da esperança que há neles, e isso com toda a mansidão e benignidade." Confissão de fé, abertura. Crespin II, p. 511 ("SVIVANT la doctrine de S. Pierre Apostre, en sa premiere Epistre, tous Chrestiens doiuent estre tousiours prests de rendre raison de l'esperance qui est en eux, & ce en toute douceur & benignité"); relato de 1561, f. 36
Na tela: "…rogando-lhe [a Deus]… que ela [a fé] não esteja morta em nós, mas produza frutos dignos de seus filhos" Confissão de fé, fecho. Crespin II, p. 513 ("le priant qu'il lui plaise faire qu'elle ne soit morte en nous, ains produise fruits dignes de ses enfans")
Na tela: assinada por Jean du Bordel, Matthieu Vermeil, Pierre Bourdon, André la Fon (grafia de Crespin) Crespin II, p. 513
Villegaignon os declarou hereges e os pôs a ferros Crespin II, p. 514 ("Il les declare heretiques"); p. 515 ("les enferrer par les iambes")
Na prisão, segundo Crespin, oravam e cantavam salmos Crespin II, p. 515 ("prient, chantent Pseaumes & louanges à Dieu d'vn grand zele & affection"); relato de 1561, o mesmo
Anos depois, o próprio Villegaignon escreveu que eles tinham voltado para perturbar a religião da colônia e levantar seus homens contra ele Villegaignon, Response aux libelles d'iniures, Paris: André Wechel, 1561, f. A ij ("seroyent retournez pour nous troubler en nostre religion, & conciter mes gens contre moy")
Numa manhã de fevereiro, Bourdel foi levado a um rochedo junto ao mar, cantando salmos pelo caminho Crespin II, p. 515–516 ("le mener sur vne roche"; "chantoit Pseaumes & cantiques au Seigneur")
VERNEUIL: "Ó Deus eterno… queiras, por tua clemência, despertar-te e assistir aos teus, tomando a causa deles, que é a tua, em tua mão…" Crespin II, p. 516 ("O Dieu eternel… vueilles par ta clemence te resueiller & assister aux tiens, prenant leur cause, qui est la tienne, en ta main…"); relato de 1561, o mesmo
André La Fon, o alfaiate, cedeu e foi poupado Crespin II, p. 516–517 ("André La-fon, tailleur d'habillemens… condescendit à dire qu'il ne vouloit estre obstiné")
Pierre Bourdon, doente, foi trazido da terra firme. Os três foram lançados ao mar Crespin II, p. 517–518; Léry 1578 ("en fit noyer trois au fort de Colligny"); Villegaignon 1561 ("l'execution… de trois")
Naquele mesmo ano, Jean de Léry entregou a confissão ao impressor Jean Crespin Léry 1578 e 1580 ("dés ceste mesme année 1558. ie la baillay à Iean Crespin Imprimeur")
Hino: 1ª estrofe do Salmo 5 de Clément Marot, "Aux paroles que ie vueil dire" Les Pseaumes mis en rime françoise (Genebra: François Perrin, 1562; Lucas de Mortières, 1563), texto e melodia lidos nas duas edições; melodia em hinos/salmo-5.json, na forma de 1562 (não está conferido que seja idêntica à de 1557)
Fecho: "Antes santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e sempre estai aparelhados para responder com mansidão e temor a cada qual que vos pedir razão da esperança que em vós há." (1 Pedro 3:15) A Biblia Sagrada, trad. Almeida (Londres, 1819), grafia atualizada; Crespin II, p. 511, à margem da Confissão: "I. Pierre 3."
Legenda: "Tomemos pois coragem, meus irmãos: que as crueldades, as riquezas, as vaidades deste mundo não nos impeçam de vir a Cristo." Crespin II, p. 514 ("Prenons donc courage, mes freres…"); relato de 1561: "segundo Crespin"
Carrossel: La Fon, alfaiate; Bourdon, torneiro; catorze homens saem de Genebra, com Richier e Chartier Crespin II, p. 516–517 ("tailleur"), p. 517 ("le tourneur"); Léry 1580, cap. I (a lista dos catorze)

Ficaram de fora de propósito: qualquer superlativo sobre a Confissão; "escreveram em doze horas"; o dia de fevereiro (9, 10 ou 11) e a "sexta-feira"; "enforcados", "estrangulados" e "quatro mortos"; "traidor" para La Fon; "o salmo que cantaram ao morrer"; "Caim da América", o soco, "tirano" e "monges renegados"; os artigos polêmicos da Confissão; a viagem do barco e os indígenas; Jacques le Balleur, que não assinou; Mem de Sá e o fim da França Antártica.

Leituras

  • Histoire des choses memorables advenues en la terre du Bresil ([Genebra], 1561)
  • Jean Crespin, Histoire des martyrs (texto de 1619, ed. D. Benoit, t. II, 1885), p. 506–518
  • Jean de Léry, Histoire d'un voyage faict en la terre du Bresil (1578; 2ª ed., 1580)
  • Villegaignon, Response aux libelles d'iniures (Paris: André Wechel, 1561)
  • Saltério de Genebra (Perrin, 1562; Mortières, 1563) · Bíblia, trad. Almeida (Londres, 1819)

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