Doze anos em Bedford
“Doze anos em Bedford”
Numa cadeia inglesa, um pregador escreveu: "A separação da minha mulher e dos meus pobres filhos tem sido muitas vezes para mim, neste lugar, como arrancar a carne dos meus ossos." (John Bunyan, Grace Abounding, 1666 · § 260)
Quem era
John Bunyan foi batizado em Elstow, Bedfordshire, em 1628. Era funileiro, como o pai. Na guerra civil foi soldado, quase certamente do lado do Parlamento.
Com a primeira mulher, de nome desconhecido, teve quatro filhos; a mais velha, Mary, batizada em 1650, era cega. Viúvo, casou-se com Elizabeth cerca de um ano antes da prisão.
Membro da congregação independente de Bedford desde 1653, pregava sem ordenação, em casas, celeiros e campos.
Elizabeth e o juiz Hale
Em agosto de 1661, Elizabeth levou a petição do marido três vezes aos juízes. Por fim falou-lhes numa sala da estalagem do Cisne, em Bedford.
Disse: "porque é funileiro e homem pobre, por isso é desprezado e não consegue justiça."
Hale, "muito brandamente": "Digo-te, mulher, já que é assim, que tomaram o que o teu marido falou como condenação; tens de recorrer ao rei, ou requerer o perdão dele, ou obter um writ of error."
Linha do tempo
- 1628Batizado em Elstow
- 1650Batismo de Mary, a filha cega
- 12/11/1660Preso em Lower Samsell
- ago. 1661Elizabeth diante dos juízes
- 1666Grace Abounding, escrito na prisão
- 1672Solto; licença para pregar
- 1678The Pilgrim's Progress
- 31/8/1688Morre em Londres
“Tenho de arriscar-vos todos com Deus, ainda que me doa no vivo deixar-vos.”
“I must venture you all with God, though it goeth to the quick to leave you”
Logo antes, sobre Mary: "Pobre criança!"; logo depois: "eu era como um homem que derrubava a sua casa sobre a cabeça da mulher e dos filhos".
“Contudo, antes de sair, não pude deixar de romper em lágrimas, não tanto por serem tão duros de coração comigo e com o meu marido, mas por pensar na triste conta que tais pobres criaturas terão de dar na vinda do Senhor.”
“yet before I went out, I could not but break forth into tears, not so much because they were so hard-hearted against me and my husband, but to think what a sad account such poor creatures will have to give at the coming of the Lord”
Mito e fato
MitoDoze anos numa masmorra, na cadeia da ponte do Ouse.
FatoNa cadeia do condado, com períodos de mais e de menos rigor; o DNB chama a da ponte de "erro obstinado". Quase doze anos, palavra dele, de 1660 a 1672.
MitoEscreveu O Peregrino na cela de Bedford, entre 1660 e 1672.
FatoBunyan diz só que sonhou o livro numa "cova", e a margem diz "a cadeia". Se nesta prisão ou noutra, mais curta, nos anos 1670, os estudiosos discutem.
MitoMary levava sopa ao pai na prisão, num jarro.
FatoNão há fonte do séc. XVII: é uma tradição das gravuras do séc. XIX. Sabemos só que ela morreu antes do pai.
O que se ouve no episódio
A narração completa, com as falas dos personagens. As falas são palavras registradas, com a fonte na lista abaixo.
NarradorNuma cadeia inglesa, um pregador escreve sobre a família:
John BunyanA separação da minha mulher e dos meus pobres filhos tem sido muitas vezes para mim, neste lugar, como arrancar a carne dos meus ossos.
NarradorEra John Bunyan, funileiro e pregador de Bedford. Em novembro de 1660, avisado de uma ordem de prisão, podia ter fugido. Ficou, e foi preso. Os juízes o condenaram: se não deixasse de pregar, seria desterrado. Ele respondeu:
John BunyanSe eu saísse da prisão hoje, pregaria o evangelho de novo amanhã, com a ajuda de Deus.
NarradorEm casa ficavam Elizabeth, a segunda esposa, e quatro enteados. A mais velha, Mary, tinha 10 anos e era cega. Ele escreveu:
John BunyanEspecialmente a minha pobre criança cega, que estava mais perto do meu coração do que tudo o mais que eu tinha. Pobre criança! Hás de mendigar, sofrer fome, frio, nudez, embora eu agora não suporte que o vento sopre sobre ti.
NarradorEm agosto de 1661, Elizabeth procurou os juízes. Um deles perguntou se o marido deixaria de pregar.
Elizabeth BunyanMilorde, ele não ousa deixar de pregar enquanto puder falar.
NarradorDepois:
Elizabeth BunyanMilorde, tenho quatro filhos pequenos que não podem valer-se a si mesmos, dos quais um é cego, e não tenho com que viver senão a caridade de gente boa.
NarradorContou que estava grávida quando ele foi preso: com o susto, ficou oito dias em trabalho de parto, e a criança morreu. O juiz Matthew Hale disse: "Ai, pobre mulher!", mas não podia ajudá-la. Ela saiu chorando.
John BunyanEu era como um homem que derrubava a sua casa sobre a cabeça da mulher e dos filhos. Contudo pensei: tenho de fazê-lo, tenho de fazê-lo.
NarradorApoiou-se num versículo: "Deixa a teus órfãos, eu guardá-los-ei em vida; e tuas viúvas confiar-se-ão sobre mim. Ficou preso até 1672, quase 12 anos. Ali escreveu Graça Abundante. Depois veio O Peregrino, sonhado, diz ele, numa prisão: nesta ou noutra, mais curta, os estudiosos discutem. Mary morreu antes do pai. Não sabemos quando.
Galeria
Traduções literais nossas. As palavras de Elizabeth vêm do relato que Bunyan diz ter tomado "da boca dela". Secundárias: E. Venables, DNB (1886) e a ed. de Oxford (1900).
Thomas Sadler, John Bunyan, óleo, 1684 · National Portrait Gallery, Londres · Domínio público (`File:John Bunyan by Thomas Sadler 1684.jpg`, 668 × 800).
Jonathan Spilsbury segundo Thomas Sadler, John Bunyan, mezzotinta, séc. XVIII · Rijksmuseum · Domínio público (CC0) (`File:Portret van John Bunyan, RP-P-1905-2047.jpg`).
John Bunyan sonhando, frontispício de O Peregrino, gravura, c. 1760 · Library of Congress · Domínio público (`File:Frontis., John Bunyan, head and shoulders portrait, sleeping - in background is his dream of the "Pilgrim's Progress" LCCN2006679915.jpg`).
John Michael Wright, Sir Matthew Hale, c. 1670 · National Portrait Gallery, Londres · Domínio público (`File:Sir Matthew Hale by John Michael Wright.jpg`).
Simon Speed, a porta da antiga cadeia de Bedford, no John Bunyan Museum, foto, 2007 · Domínio público (`File:OldBedfordGaolDoor.JPG`; a atribuição da porta é do museu).
Para salvar
O resumo do episódio em oito cartões. Deslize para o lado.







Fontes de cada afirmação
Afirmações e fontes
| Narração | Fonte |
|---|---|
| Numa cadeia inglesa, um pregador escreve sobre a família. Na tela: "Bedford · década de 1660" | Grace Abounding (1666), folha de rosto: "as also what he hath met with in Prison. All which was written by his own hand there" |
| BUNYAN: "A separação da minha mulher e dos meus pobres filhos tem sido muitas vezes para mim, neste lugar, como arrancar a carne dos meus ossos." Na tela: "Grace Abounding, 1666 · § 260" | GA 1666, § 260: "the parting with my Wife and poor Children hath oft been to me in this place, as the pulling the flesh from my bones"; GA 1680, § 328 |
| Era John Bunyan, funileiro e pregador de Bedford | DNB (Venables, 1886): brasier como o pai; congregação de Bedford (1653), pregador reconhecido (1657). "Funileiro" é a tradução corrente de tinker (a palavra de Elizabeth na Relation) |
| Em novembro de mil seiscentos e sessenta, avisado de uma ordem de prisão, podia ter fugido. Ficou, e foi preso. Na tela: "Lower Samsell, Bedfordshire · 12 de novembro de 1660" | Relation (1765), início: "Upon the 12th of this instant November, 1660"; "there was a Warrant out to take me"; "By no means, I will not stir, neither will I have the meeting dismissed for this"; Venables (1900), p. 401 ("Samsell, by Harlington"); DNB |
| Os juízes o condenaram: se não deixasse de pregar, seria desterrado. Na tela: "Bedford · janeiro de 1661" | Relation, a sentença de Keeling nas sessões de janeiro de 1661: "if you do not submit to go to church to hear divine service, and leave your preaching, you must be banished the realm". Resumida: os três meses e o "stretch by the neck" ficam fora |
| BUNYAN: "Se eu saísse da prisão hoje, pregaria o evangelho de novo amanhã, com a ajuda de Deus." Na tela: "A Relation of the Imprisonment, escrita por ele · impressa em 1765" | Relation (1765): "For if I was out of prison to day, I would preach the Gospel again to-morrow, by the help of God"; Venables (1900). A forma de Macaulay é paráfrase |
| Em casa ficavam Elizabeth, a segunda esposa, e quatro enteados | Relation: "My Lord, I have four small children"; "I am but mother-in-law to them, having not been married to him yet full two years"; DNB (casamento "about a year before his apprehension") |
| A mais velha, Mary, tinha dez anos e era cega | Venables (1900), nota da p. 393 (batismo em 20/7/1650, registro de Elstow; a cronologia da mesma edição dá 13/1/1650: a idade não muda); DNB ("born in 1650"); GA: "my poor blind Child" |
| BUNYAN: "Especialmente a minha pobre criança cega, que estava mais perto do meu coração do que tudo o mais que eu tinha. Pobre criança! […] Hás de mendigar, sofrer fome, frio, nudez, […] embora eu agora não suporte que o vento sopre sobre ti." Na tela: "Grace Abounding, 1666 · §§ 260–261" | GA 1666, § 260: "especially my poor blind Child, who lay nearer my heart than all I had besides"; § 261: "Poor Child! thought I, what sorrow art thou like to have for thy portion in this world? thou must be beaten, must beg, suffer hunger, cold, nakedness, and a thousand calamities, though I cannot now endure the wind should blow upon thee"; GA 1680, §§ 328–329. Os dois cortes ("que tristeza terás por porção neste mundo? Hás de ser espancada" e "e mil calamidades") vão marcados com "[…]" na legenda |
| Em agosto de mil seiscentos e sessenta e um, Elizabeth procurou os juízes. Na tela: "Bedford · assises de agosto de 1661" | Relation: "Midsummer assizes, being then kept in August, 1661"; a petição levada três vezes (a Hale, a Twisden, de novo a Hale) e, por fim, a audiência na Swan Chamber; Venables (1900), p. 424–427 ("the large chamber of the old Swan Inn, at the Bridge-foot") |
| Um deles perguntou se o marido deixaria de pregar | Relation: "Twis. What, will your husband leave preaching? If he will do so, then send for him." Pelo narrador, sem nome |
| ELIZABETH: "Milorde, ele não ousa deixar de pregar enquanto puder falar." Na tela: "relato de Elizabeth, escrito por Bunyan · A Relation of the Imprisonment (1765)" | Relation (1765), p. 44–45: "My Lord, said she, he dares not leave preaching, as long as he can speak"; Venables, p. 426 |
| ELIZABETH: "Milorde, tenho quatro filhos pequenos que não podem valer-se a si mesmos, dos quais um é cego, e não tenho com que viver senão a caridade de gente boa." | Relation, p. 45: "My Lord, I have four small children that cannot help themselves, of which one is blind, and have nothing to live upon, but the charity of good people"; Venables, p. 426 |
| Contou que estava grávida quando ele foi preso: com o susto, ficou oito dias em trabalho de parto, e a criança morreu | Relation, p. 45: "I was with child when my husband was first apprehended; but being young, and unaccustomed to such things… I being smayed at the news, fell into labour, and so continued for eight days, and then was delivered, but my child died." Em discurso indireto; a criança não tem nome |
| O juiz Matthew Hale disse: "Ai, pobre mulher!", mas não podia ajudá-la | Relation: "Whereat, he looking very soberly on the matter, said, Alas, poor woman!"; mais adiante: "I am sorry, woman, that I can do thee no good" (p. 47; Venables, p. 427) |
| Ela saiu chorando | Relation, p. 47: "yet before I went out, I could not but break forth into tears" |
| BUNYAN: "Eu era como um homem que derrubava a sua casa sobre a cabeça da mulher e dos filhos. Contudo pensei: tenho de fazê-lo, tenho de fazê-lo." Na tela: "Grace Abounding, 1666 · § 261" | GA 1666, § 261: "I was as a man who was pulling down his house upon the head of his Wife and Children; yet thought I, I must do it, I must do it"; GA 1680, § 329 |
| Apoiou-se num versículo: "Deixa a teus órfãos, eu guardá-los-ei em vida; e tuas viúvas confiar-se-ão sobre mim." Na tela: "Jeremias 49:11 (Almeida, 1819)" | GA 1666, § 262 ("the first was, the consideration of those two Scriptures, Leave thy fatherless children, I will preserve them alive, and let thy widows trust in me"); ref. "Jer. 49. 11" na ed. de 1680, § 330. Almeida, Londres, 1819: "Deixa a teus orfaõs, eu guardalos hei em vida: e tuas viuvas confiar se haõ sobre my"; Nova York, 1848: "Deixa a teus órfãos, eu guarda-los-hei em vida: e tuas viuvas confiar se hão sobre mim". Grafia atualizada. No profeta, a palavra é dirigida a Edom; Bunyan a aplica à própria família |
| Ficou preso até mil seiscentos e setenta e dois, quase doze anos. Na tela: "1672" | A Confession of my Faith (1672), "To the Reader": "almost twelve years imprisonment" (OCR danificado); The Continuation of Mr. Bunyan's Life (1692): "Twelve years Imprisonment and upwards"; licença para pregar de 9/5/1672 e perdão de 13/9/1672 (DNB; Venables). De nov. 1660 a maio de 1672: cerca de onze anos e meio |
| Ali escreveu Graça Abundante | GA 1666, folha de rosto ("written by his own hand there") |
| Depois veio O Peregrino, sonhado, diz ele, numa prisão: nesta ou noutra, mais curta, os estudiosos discutem. Na tela: "The Pilgrim's Progress, 1678 · margem: 'The Gaol' (ed. de 1679)" | The Pilgrim's Progress (Londres, 1678), abertura: "I lighted on a certain place, where was a Den; and I laid me down in that place to sleep"; a margem "The Gaol", vista na imagem da p. 1 da 3ª ed. (1679); DNB ("the third… edition of 1679"). A discussão: Venables (1900) põe o livro na prisão longa; John Brown (1885), o DNB e a Encyclopædia Britannica (1911), na prisão curta dos anos 1670 |
| Mary morreu antes do pai. Não sabemos quando | DNB ("died before her father"); Venables (1900), nota da p. 393 ("died before him"). Nenhuma data |
| Fecho, na tela: "Deixa a teus órfãos, eu guardá-los-ei em vida; e tuas viúvas confiar-se-ão sobre mim." Jeremias 49:11 (Almeida, 1819) | Almeida, Londres, 1819, grafia atualizada (conferida também na de 1848) |
| Legenda: Hale recebeu a primeira petição "muito brandamente" e indicou os caminhos da lei | Relation: "very mildly"; "thou must either apply thyself to the King, or sue out his pardon, or get a writ of error" (Venables, p. 426) |
| Legenda e carrossel: "não tanto por serem tão duros de coração…" | Relation, p. 47 (Venables, p. 427): "not so much because they were so hard-hearted against me and my husband, but to think what a sad account such poor creatures will have to give at the coming of the Lord" |
| Carrossel: "Tenho de arriscar-vos todos com Deus, ainda que me doa no vivo deixar-vos." | GA 1666, § 261: "I must venture you all with God, though it goeth to the quick to leave you"; GA 1680, § 329 |
| Carrossel: "porque é funileiro e homem pobre, por isso é desprezado e não consegue justiça", com a resposta de Hale | Relation, p. 46: "because he is a Tinker, and a poor man, therefore he is despised, and cannot have justice"; a resposta que segue no texto, "very mildly": "I tell thee, woman, seeing it is so, that they have taken what thy husband spake for a conviction; thou must either apply thyself to the King, or sue out his pardon, or get a writ of error" (Venables, p. 426) |
| Carrossel: o mito da cadeia da ponte e da masmorra | DNB: "an obstinate and widespread error"; a cadeia do condado, "a much less confined… abode"; Macaulay (EB 1911): "a dungeon" |
| Carrossel: Mary e a sopa | Nenhuma fonte do séc. XVII encontrada; gravuras de Cassell's Illustrated History of England (1865) e de Bradley Garretson & Co. (1874) |
Leituras
- John Bunyan, Grace Abounding to the Chief of Sinners (Londres, 1666; ed. de 1680), §§ 260–262
- John Bunyan, A Relation of the Imprisonment (escrita c. 1661–62; Londres, 1765)
- John Bunyan, A Confession of my Faith (Londres, 1672)
- John Bunyan, The Pilgrim's Progress (Londres, 1678; 3ª ed., 1679)
- The Continuation of Mr. Bunyan's Life (Londres, 1692)
- A Biblia Sagrada, trad. J. F. de Almeida (Londres, 1819), Jr 49:11
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